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sábado, 16 de junho de 2018

O MISTÉRIO SOBRE AS PREFERÊNCIAS FLORAIS


Aí rolam fotos para lá a para cá, confirmam-se espécies, debate-se alguns dias e fica ´por fim a dúvida : Plantamos ou não a “planta X”?

Afinal porque em pastos melíferos comprovadamente com flora de espécies idênticas, disponibilizados para abelhas da mesma espécie, percebe-se uma aceitação diferente pelas abelhas? Será o solo? Será o clima? Umidade na terra? 
O que poderia determinar este comportamento diferenciado, esta variação de paladar ou preferência da mesma espécie de abelha pela mesma espécie de flora, observado em regiões diferentes?
 
 Sempre fiquei pensando nisso. Com certeza algo referente ao néctar, ao aroma, talvez influência do solo em que a planta se encontra. Mas o que exatamente?


Um dia achei uma explicação mais detalhada que resolvi compartilhar com todos.

Encontrei um livro chamado “Fisiologia Animal” de  Richard W. Hill, Gordon A. Wyse, Margaret Anderson, e os autores revelam vários ciclos biológicos muito interessantes que eu desconhecia, vou tentar explicar o que mais me interessou: “A energética da vida diária em situações de rotina e extremas”

Eles estudam várias maneiras de se mensurar o metabolismo dos organismos, e montam equações capazes de determinar a energia abastecida, a energia transformada em trabalho, a energia acumulada e a energia dissipada.
É uma análise de balanço energético biológico.
Tal como um equipamento mecânico, um carro ou qualquer outro dispositivo criado pelo homem, nos seres vivos a energia nos dois lados da equação tem sempre que ser iguais!
Descobriram também que animais que precisam de algum modo manter uma temperatura constante do seu sistema em relação ao meio ambiente, pagam uma conta cara! 
O que os biólogos chamam de homeotermia.
Então devido a essa homeotermia, os mamíferos ou aves que vivem em ambiente selvagem necessitam de 12 a 20 vezes mais energia do que lagartos ou cobras de pesos equivalentes vivendo no mesmo ambiente. 
Desse modo, animais que mantêm constante o calor em seu sistema biológico necessitam priorizar em seu dia a dia a busca por fontes de energia.
 A seguir vou transcrever/adaptar alguns trechos do livro “Fisiologia Animal” que explica muito bem esta  questão “energética ecológica” nas abelhas mamangavas, a partir do entendimento de outra pesquisa pertencente a Bernd Heinrich sobre custos e recompensas .

As diversas espécies de abelhas possuem vários modos de obter recursos para sobreviverem. O ato de procurarem alimentos é denominado forrageamento. 
Existe uma teoria, chamada de Teoria do Forrageamento Ótimo, que tenta explicar qual é o ótimo de forrageamento de uma abelha na obtenção de recursos alimentares, ou seja, quais recursos ela utiliza melhor ou quantos recursos são utilizados para satisfazer suas necessidades energéticas. 
Existe a variação da amplitude de uma dieta, ou seja, a variação na quantidade de recursos que compõe a dieta da abelha, e essa variação é chamada de Amplitude Ótima da Dieta.

 A pesquisa leva em conta a questão de aquisição do alimento, que requer um custo. 
E em paralelo a recompensa energética obtida no néctar. 
A pesquisa teve como parâmetro mamangavas forrageando um conjunto floral de Rododendros.

O voo de uma mamangava é muito dispendioso, assim como o das melíponas, devido a sua aerodinâmica peculiar.
Quando em vôo as mamangavas elevam de 20 até 100 vezes a sua taxa metabólica em relação ao seu repouso.
E para conseguirem voar precisam que os músculos das asas estejam a pelo menos 30ºC.
Assim, se a temperatura ambiente for abaixo de 30ºC, as mamangavas precisam produzir calor suficiente para pré-aquecer os músculos das asas e conseguirem voar
.
Vou abrir um parênteses aqui.
Consegui dados de uma pesquisa sobre abelhas Apis, que podem ilustrar estes valores:

As abelhas Apis melífera conseguem voar com uma variação de temperatura do ar abaixo de 15°C, como também acima de 40°C. Além disso, elas também apresentam durante o vôo a temperatura da superfície corpórea não distribuída uniformemente entre as três partes do corpo (cabeça, tórax e abdômen) (HARRISON, 1987).

Em um experimento realizado com abelhas (Apis mellifera) em um bebedouro com xarope e a temperatura do ar variando de 20,9°C a 27,2°C, a cabeça e o abdomen foram somente 3°C a 2°C acima da temperatura ambiente. E a temperatura do tórax de abelhas coletando água foi similar da encontrada em abelhas bebendo uma solução de sacarose. Porém, quando ocorria um aumento de teor de açúcar na solução de sacarose, houve também o aumento na temperatura do tórax (SCHMARANZER, 2000).
 Voltando às Mamangavas, durante o vôo, o próprio funcionamento dos músculos gera o calor necessário, mas quando pousadas, seja no enxame ou em uma flor, se a temperatura ambiente impuser uma perda de temperatura corporal, as mamangavas correm o risco de não conseguirem levantar voo.
Para conseguirem levantar vôo, elas mantêm a temperatura mínima realizando o famoso Buzzy enquanto estão pousadas.

 Acredito que as nossas meliponas devem apresentar o mesmo comportamento!!
 Isto também explica porque em invernos rigorosos, muitos meliponicultores já observaram e relatam mandaçaias ou uruçus saem que em vôo da caixa e caem no chão logo após a saída da caixa! Depois batem as asas e voltam a voar.
     
Considerando os custos energéticos tanto do voo quanto dos tremores, o gasto metabólico médio por unidade de tempo necessário para uma abelha forragear tende a aumentar à medida que a temperatura ambiente diminui.

Agora vamos analisar a recompensa energética pelo voo de forrageamento.

Uma abelha, do porte da Mangangava, voando em um ambiente a 0ºC chega a gastar até 12,5J por minuto de atividade de forrageamento. 
O néctar disponibilizado por uma flor de rododendro (por exemplo) equivale a 1,7J de energia. 
Assim, neste ambiente esta abelha teria que forragear de 7 a 8 flores de rododendro somente para atingir suas necessidades de operação. 
As mamangavas conseguem forragear com eficiência até 20 flores de rododendro por minuto.

Desse modo, conforme a temperatura ambiente, as abelhas buscam fontes com mais ou menos disponibilidade energética, de modo que possam trabalhar e ainda sobrar alimento para levar para suas colmeias. Pois na colmeia terão também que vibrar para produzir calor e manter a temperatura das células de cria.

Em tempos mais quentes aceitam forragear flores que disponibilizam néctar mais aquoso como das cerejeiras (0,21J por flor), mas no inverno ou em regiões frias, passam direto pelas cerejeiras e buscam por espécies florais mais energéticas.
Dependendo da espécie da abelha, ela tem um custo maior ou menor para forragear, e voarão diretamente para as flores que apresentem néctar com quantidade suficiente de frutose e/ou glicose, e que ofereçam um ganho energético.

Guardadas as devidas proporções, todas as espécies de abelhas melíponas se comportam de maneira semelhante.
E assim acho que se resolve O MISTÉRIO SOBRE AS PREFERÊNCIAS FLORAIS.

Meliponicultores já relataram astrapéias plantadas perto de lagos, que chegam a escorrer néctar, certamente o teor de frutose e/ou glicose do néctar desta astrapéia é menor do que outra astrapéia plantada em solo não tão encharcado.

E o mesmo se dá com diversas outras flores, umas plantadas em solos mais ricos em nutrientes, ou submetidas a maior exposição solar e portanto sob maior atividade metabólica.

Então, o meliponicultor cuidadoso, deve se atentar para o tamanho da espécie de abelha criada. Dependendo do seu tamanho e volume de indivíduos na área do meliponário, o pasto melífero poderia ter seu solo mais enriquecido antes do inverno, por exemplo. Ou escolher locais mais ensolarados para plantar aquela mudinha melífera especial!   
Com certeza abelhas escoteiras, quando vão em busca de alimentos, conseguem perceber estas diferenças num tocar de língua!!
É toda a complexidade de uma equação matemática na ponta da língua de uma abelha!!

Esse "serzinho" tão inteligente só pode ter sido criado por uma Mente Maior!!  

Medina    


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