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segunda-feira, 17 de setembro de 2018


AS PLANTAS FALAM. MAS ESTÃO COM PROBLEMAS DE COMUNICAÇÃO


Os gases das fábricas e dos veículos automotores se difundem silenciosamente, interagindo com as substâncias químicas emitidas pelas plantas. Isso altera a comunicação entre elas e pode explicar o fenômeno da diminuição do número das abelhas e de outros insetos polinizadores.

Por: Marta Zaraska
Fonte: Revista New Scientist, Londres
Publicado em 13/09/2018

Em O Dia das Trífides (Coleção Argonauta, Editora Livros do Brasil), o romance pós-apocalíptico de John Windham que se tornou um clássico, a humanidade é atormentada por plantas carnívoras gigantes que andam e que têm espinhos venenosos. A dimensão da ameaça advém da capacidade de comunicar e, consequentemente, conspirar contra nós.
Parece rebuscado, mas desde a publicação do romance, em 1951, que um dos elementos desta obra de ficção científica foi confirmado pela ciência: sim, as plantas falam. Se passearmos numa floresta e se inspirarmos profundamente, poderemos sentir as suas “palavras”, na forma de substâncias químicas complexas como o beta- pineno, que tem o cheiro da madeira do pinheiro.
 
Certos óxidos, como o de ozono e o de azoto, emitidos pelas centrais elétricas e pelos veículos, são os principais elementos perturbadores das mensagens entre vegetais.

As plantas produzem milhares de cheiros e os associam para criarem “frases”. Essa linguagem perfumada está ameaçada. A poluição do ar perturba os odores e transforma as mensagens em conversas confusas e sem nexo. Isso não só afeta a capacidade de sobrevivência das plantas como também é uma péssima notícia para os insetos polinizadores e até para nós, humanos, porque condiciona, entre outros, o cheiro das nossas flores favoritas. Felizmente, existe uma forma nova de ajudar os nossos amigos vegetais a contra-atacar.
Há muito tempo sabemos que os insetos polinizadores e até mesmo os insetos nocivos distinguem as plantas por causa da composição única de substâncias químicas que cada uma emite. A novidade é a ideia de que os vegetais usam essa capacidade para falar entre si.
“As plantas libertam na atmosfera substâncias químicas voláteis que podemos considerar uma linguagem, no sentido em que é possível afirmar que a planta que liberta a substância ‘fala’ com a que a recebe e ‘ouve’ a resposta”, explica James Blande, especialista em Ecologia Química da Universidade da Finlândia Oriental. “Algumas plantas informam outras em caso de ataque iminente de parasitas. Quando um tomateiro está infestado de vermes cinzentos (uma espécie de lagarta), por exemplo, liberta um coquetel de produtos químicos que é captado pelos seus vizinhos. Assim que estes “recebem” o alerta, começam a produzir glicosídeos (substâncias químicas, formadas pela união de moléculas de glucídeos), que desencadeiam a emissão de um veneno destinado a eliminar as lagartas. Outras plantas pedem ajuda a insetos amigos, usando um método semelhante: quando os pulgões invadem uma planta de soja, esta aciona um alarme químico que faz com as joaninhas venham em seu auxílio”.
 

De quem é a culpa?
Sabemos hoje que a poluição pode afetar essas comunicações. Para estudar o fenômeno, James Blande e sua equipe colocaram exemplares desses insetos em salas com flores de papel semelhantes às da mostarda-preta. A seguir injetaram na sala o odor de flores de mostarda-preta, que foi aumentado seja num ambiente saudável seja numa atmosfera poluída. A reação foi inequívoca: no primeiro caso, os insetos foram imediatamente atraídos pelo odor não poluído, mas no outro caso a poluição fazia com que andassem incessantemente em círculos em vários pontos da sala, demonstrando desorientação.
Por quê? Nos últimos anos, o óxido de ozono e o óxido de azoto apareceram como sendo os principais elementos perturbadores das mensagens entre vegetais. Estes dois óxidos são emitidos pelas centrais elétricas e pelos veículos, sendo os motores a diesel os mais problemáticos. Ambos reagem quimicamente com as substâncias voláteis emitidas pelas plantas, decompondo algumas mais depressa do que outras, modificando o seu aroma. Quando o limoneno, um monoterpeno (molécula aromática) que é uma “palavra” comumente usada pelas laranjeiras, é misturado com ozono, divide-se em várias centenas de elementos e chega a constituir 1.200 compostos diferentes.
Às vezes, esse fenômeno se produz a uma velocidade alucinante. Robbie Girling, da Universidade de Reading, no Reino Unido, e a sua equipe expuseram oito substâncias, produzidas normalmente pelas flores, a gases do escapamento de um motor a diesel. “Não esperávamos que isso acontecesse tão depressa”, afirma. Em um minuto, o período mais curto avaliado pelo nosso método, um dos compostos tinha desaparecido. Tomou-se indetectável instantaneamente.”
Não é apenas a clareza da linguagem que sofre: é também a sua “quantidade”. O odor libertado pelas plantas não viaja tão longe num ambiente poluído como num ambiente limpo. Para perceber como as coisas se modificaram, desde a era pré-industrial, José Fuentes (da Universidade da Pensilvânia, EUA) e a sua equipe, da Universidade da Virgínia (EUA), desenvolveram um modelo informático que integra os níveis de poluição no decurso da história e constataram que os odores, que antes podiam ser captados a quilômetros de distância, não percorrem hoje mais de 200 metros.
 
 Esses cientistas observaram a mesma redução de sinal entre um ambiente limpo e um ambiente poluído, como o dos nossos dias. Tomemos como exemplo o feijão (espécie leguminosa). Quando atacada por ácaros-aranha (uma das famílias desses parasitas), uma planta emite sinais químicos que incitam os vizinhos a produzir um néctar açucarado que atrai ácaros predadores, que atacam os invasores. “Se a atmosfera estiver limpa”, constatou James Blande, “as plantas comunicam sem problemas com os vizinhos situados a 70 centímetros, mas se a concentração de ozono ultrapassar as 80 partes por milhão (ppm), os seus gritos de alerta não serão captados a mais de 20 centímetros”.
Estas 80 ppm de ozono parecem muitas vezes ser o limiar em que os problemas começam, o que é uma má notícias porque a concentração de ozono na atualidade ultrapassa muitas vezes as 100 ppm e, nas zonas urbanas, chega a alcançar as 200 ppm. Não conhecemos tão bem os limiares problemáticos do óxido de azoto, mas não temos dúvidas de que os gases emitidos pelos motores a explosão danos: eles têm um tal impacto na saúde humana que em alguns países como no Reino Unido a regulamentação fixa limites para as emissões. Porém, na realidade, esses limites são regularmente ultrapassados. Por exemplo, o nível de dióxido de azoto não pode ultrapassar os 200 microgramas por metro cúbico/hora, mais de 18 vezes por ano. No entanto, em algumas zonas de Londres, esse limite foi ultrapassado já nos primeiros dias de 2017.
 
 Perfume das rosas afetado
Os jardineiros citadinos certamente já repararam nesse efeito. “Esses poluentes afetam os odores emitidos pelas plantas”, afirma James Blande. Os óxidos de azoto chegam a reduzir o tempo de alguns odores florais no ar de 18 horas para apenas cinco minutos. O perfume das rosas, por exemplo, é menos intenso nas cidades do que no campo, realça o investigador. É preciso estar muito perto para lhes sentir o cheiro e, mesmo assim, não conseguimos identificar todo o seu aroma, porque os poluentes destroem rapidamente alguns compostos como o beta-cariofileno (presente sobretudo no lúpulo, no alecrim e na canela).
Não é apenas o nosso nariz nem os poetas que sofrem, quando o odor das flores é perturbado. “Não acho que seja ir longe demais afirmar que a poluição doar constitui um fator redutor do número de insetos”, afirma Robbie Girling. A quantidade de insetos está diminuindo constantemente em todo o mundo. Esse é um fenômeno que produziu manchetes na mídia em 2017, quando os cientistas perceberam que as reservas naturais de insetos na Alemanha tinham diminuído 75% em apenas 27 anos.
Uma comunicação deficiente entre insetos e flores pode ter consequências particularmente importantes para os polinizadores, mesmo que ainda ninguém tenha medido o seu impacto no número de abelhas. Robbie Girling e a sua equipe constataram que o mirceno, um monoterpeno volátil corrente, é particularmente vulnerável aos gases emitidos pelos motores a diesel – e isso pode confundir os polinizadores: se retirássemos o mirceno do aroma das flores, apenas 37% das abelhas as reconheceriam.
A interferência na linguagem das plantas ameaça a sobrevivência dos insetos polinizadores, e as próprias plantas, e pode desestabilizar ecossistemas inteiros, com consequências graves para o mundo natural e a agricultura. Mesmo que nos esforcemos por reduzir a quantidade de poluentes, as coisas já foram tão longe que, agora, só poderão melhorar muito lentamente.
A boa noticia é que existe uma medida simples e imediata para ajudar as plantas a comunicarem: plantar mais, para que absorvam os poluentes. Algumas plantas são mais eficazes nesse processo de deputação ambiental do que outras. Segundo esses investigadores, a reflorestação é particularmente apropriada, porque as árvores possuem uma grande superfície que lhes permite absorver o ozono e o dióxido de azoto da atmosfera.
Os urbanistas já se colocaram no bom caminho. Várias cidades têm jardins verticais e paredes vivas. Em Londres, por exemplo, uma parede com 20 metros de altura e mais de 10 mil plantas foi construída junto à estação ferroviárias Victoria. Há mesmo quem plante árvores no topo dos edifícios. Em Milão, existe o primeiro arranha-céu florestal do mundo; construído em 2014, nas suas varandas há 800 árvores e cerca de 20 mil outros tipos de plantas.
O projeto Nanjing Green Towers, que está sendo construído na China, contará com 1.100 árvores e milhares de outras plantas. Há também uma cidade-floresta em construção perto de Liuzhou.
A interferência na linguagem das plantas
Claro que a poluição perturba também a comunicação no seio dessas florestas urbanas, mas tem menos impacto nos outros vegetais. Como as plantas estão mais perto umas das outras, não precisam gritar para se fazerem ouvir. Parece que já entendemos a situação. Jose Fuentes apela, no entanto, à prudência: alguns vegetais geram uma grande quantidade de moléculas orgânicas, as quais são as precursores (compostos que entram numa reação que produz um ou outros compostos) do dióxido de ozono e podem agravar a questão do ar poluído das cidades. “Carvalhos, álamos e choupos, por exemplo, estão fora de questão”, ele afirma.
E nos campos? Mesmo que estejam muitas vezes mais limpos, os poluentes têm efeitos nas plantas comercialmente importantes, o que pode desencadear consequências desastrosas. Para José Fuentes, a solução passa pelo plantio de flores ao redor dos campos, sobretudo as petúnias. Elas não apenas limpam os poluentes que perturbam a comunicação vegetal como também atraem insetos polinizadores. E se as flores cheirarem bom, melhor ainda para o nariz dos seres humanos. Todos ganham com isso.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

A HISTÓRIA DE UM ATAQUE

Segue abaixo mais uma colaboração do Prof. Harold Brand
Uma produção apresentando a vida de duas colônias de abelhas nativas que um dia se encontram : 
Um enxame de Jataís e outro de Abelhas limão 
Muito interessante apesar da baixa qualidade das imagens antigas.

Bom Vídeo




domingo, 24 de junho de 2018

FORÍDEOS E AS ABELHAS, CONHECENDO MELHOR O COMPORTAMENTO

Hoje temos o primeiro artigo de um novo colaborador, o Mestre Harold Brand, biólogo, meliponicultor e consultor da APA (Associação Paranaense de Apicultura).
Ele nos brindou com um tema que é de interesse de todo meliponicultor: 
FORÍDEOS E AS ABELHAS, CONHECENDO MELHOR O COMPORTAMENTO.


      O comportamento dessa espécie de mosca, na sua fase larvária desempenha dois papéis distintos, um na cadeia alimentar na função de decompositoras e outro como invasora eventual de colmeia como predata oportunista.

     Na natureza, por meio de suas larvas tem importante função na transformação da matéria orgânica em compostos mais simples, como os sais minerais necessários na continuidade da vida vegetal.
     Elas convivem bem no equilíbrio da natureza, para a sua postura apreciam o solo úmido das matas e em particular os locais onde se acumulam muitas folhas, restos animais e outros materiais orgânicos em decomposição. No espaço ocupado pelo homem, as fêmeas grávidas havidas na postura, procuram os lugares próximos à criação de gado, porcos, galinhas e outras criações principalmente onde a higiene é descuidada. Neles, as emanações do forte cheiro ácido funciona como atrativo ou sinalizador para as fêmeas grávidas na localização de um berço esplêndido para a postura de seus ovos e a garantia nutricional para sua descendência.

      Como predadora oportunista das colmeias em situação de desiquilíbrio, motivada muitas vezes pelo manejo inadequado, as suas larvas podem levar a destruição completa das famílias. Fato que levou a ser considerada por muitos meliponicultores como inimiga número 1 de seus enxames.

      As fêmeas adultas grávidas com sua notória agilidade lhes permitem penetrar em qualquer colmeia, burlando com a sua rapidez as atentas abelhas sentinelas posicionadas na entrada da colmeia. Entretanto, as famílias bem estruturadas os ovos postos são rapidamente descartados.

As abelhas: conhecendo melhor o comportamento.
      Na história evolutiva das abelhas há uma convivência com os forídeos que data de pelo menos 20 milhões de anos, nesse período as abelhas aprenderam a conviver, elas sabem como neutralizar a sua infestação desde que nós humanos não as atrapalhem com manejo inadequado.
      Sabemos que a infestação dessas “ mosquinhas” é mais frequente após as divisões das colônias, quando estas são resultantes de manejo que não foi levada em conta pelo meliponicultor as várias faixas etárias das abelhas na sua distribuição equitativa entre da caixa mãe e filha. Nos casos de divisão feita pelo meliponicultor em que a caixa mãe ou a filha recebam apenas abelhas novas, essas são incapazes de reconhecer e manipular os ovos postos por essas moscas e como resultado uma inevitável proliferação das larvas.

       Há uma crença generalizada de que em caso de necessidade as abelhas podem retornar as atividades a estágios anteriores “politeísmo etário”. Mas, esse mecanismo ou comportamento é relativo, pois muitas das atividades das abelhas estão relacionada a órgãos que se desenvolvem e que atrofiam no transcorrer da vida e que são indispensáveis para exercer certas funções especializadas. Por sua vez a mais novas passam a metade de suas vidas confinadas na colmeia, elas ainda não estão aptas a voar e como tal sem a capacidade de explorar o pasto floral.


        Fica claro, ao meliponicultor mais atento, os cuidados necessários e a importância ao dividir as suas colmeias para que as famílias resultantes recebam abelhas de várias faixas etárias. Ambas devem ter por exemplo as faxineiras, habilitadas em remover os resíduos e os ovos postos pelas moscas. Do mesmo modo no caso da caixa filha receber somente abelhas novas, essas não irão concertar as estruturas destruídas durante o manejo e muito menos remover os ovos postos pelas moscas. Os resultados são previsíveis, o caminho fica aberto para a infestação descontrolada. Ainda no caso da família filha que após a divisão ser constituída apenas por abelhas novas, na ausência das mais velhas nas suas proximidades, elas abandonam o disco de cria que é o local normal da sua permanência passando a percorrer o interior da colmeia e finalmente acabam saindo para o meio exterior onde sucumbem. Nessa faixa etária ainda não sabem voar e nem desenvolveram a capacidade de orientação. Nas abelhas existe o “sentido” de aprendizado (os pesquisadores alemães e ingleses denominam o aprendizado de “imitação deferida” a proximidades das mais velhas o exemplo é importante.

       A sociedade das nossas abelhas é uma estrutura complexa e às vezes muito parecida com a nossa.

     São esses cuidados que torna interessante adotar o manejo pelo método de divisão progressiva, pois ele permite uma distribuição mais equitativa das diversas faixas etárias e ainda por acréscimo pode ser usado para o melhoramento genético massal.

       Muitos meliponicultores ainda no intuito de gerar muitas famílias em pouco tempo realizam divisões seguidas que resultam em colmeias com pequeno número de abelhas. Nessas condições certamente elas não têm tempo de desenvolver todas as atividades e ainda coletar os ovos das moscas.  Em pouco tempo o destino fica selado e para o meliponicultor o desespero da perda.

     O manejo descuidado na divisão pode romper muitas estruturas como potes de pólen e mel ao ponto de as abelhas não darem conta de arrumar a casa e ao mesmo tempo de se defender da postura das fêmeas dos forídeos. Uma das vantagens da técnica da divisão em etapas progressivas “imita o processo de enxameação natural” é permitir o manejo sem rupturas, às estruturas se mantêm intactas em ambas famílias resultantes.

     Outro cuidado é com a alimentação artificial, os açúcares dos xaropes devem ser transformados pelas abelhas e para isso ocorra há necessidade da atividade enzimáticas das glândulas de secreção. Se a alimentação fornecida for excessiva as abelhas não conseguirão metabolizar e o conteúdo dos potes entrara em fermentação descontrolada, emanando aquele cheirinho que as fêmeas dos forídeos adoram. (A capacidade de produção de certas enzimas digestiva é uma característica de faixas etárias).


       Os Fórides uma observação e duas experiências

Uma observação:
       Uma observação pessoal que me fez refletir muito sobre a relação entre abelha e fórides; ela ocorreu em una tarde quente no cemitério da Água Verde. Este santuário, contornado por um paredão de pedra com 4 metros de altura, (obstáculo criado para impedir que os vivos não roubem os mortos) com frestas entre as pedras de granito. Esses nichos se tornaram alojamento tentador para as jataís e mirins a ponto de poder contabilizar na região leste do paredão oito famílias compreendidas numa pequena distância linear de 50 metros.
        O interessante nesse mesmo local são as verdadeiras nuvens formadas pela revoada de forídeos que aí proliferam. Sem pretender comentar aqui a origem dessa concentração alta de moscas, pois o nosso foco principal é explicar sua convivência “pacifica” com as abelhas.
    Esta situação é a prova que essas duas espécies podem conviver no mesmo ambiente e estabelecer adaptações de equilíbrio. As relações de predatismo larval com as abelhas só ocorrem em condições especiais e com certeza o maior responsável de uma forma ou de outra é do ser predominante no nosso planeta.
    Até na enxameação o equilíbrio é perfeito, ela é gradual, leva semanas na limpeza e preparação da nova morada na qual participam abelhas de quase todas as faixas etárias, habilitadas a exercer a maioria das funções que uma nova colônia requer.

     Nota: nesse processo não participam as inexperientes abelhas novas, pois são incapazes de voar, mas como são as produtoras de cera, talvez esta seja a razão porque a relação família mãe e filha se mantêm por muito tempo, é preciso voltar a casa mãe na busca da preciosa cera para as construções na nova morada.


Uma das experiências:

     Sabemos que as larvas têm respiração cutânea e que todo e qualquer processo respiratório requer umidade como intermediação na difusão do oxigênio necessário. Baseado nesse conhecimento, basta aplicar sobre o disco contaminado pelas larvas, uma substancia que absorva rapidamente a umidade. O talco inodoro cumpre bem esse papel, basta pulverizar toda a superfície do disco e após alguns minutos de espera podemos remover com um pincel macio o talco e as larvas, elas agora se desprendem facilmente. O disco assim tratado pode ser introduzido em uma colônia forte.  As abelhas irão completar o serviço e adotar o disco de cria.

A outra experiência:

      Introduzir o disco contaminado diretamente numa colônia forte. A resposta será imediata, podemos ouvir em poucos minutos o aumento do ruído das vibrações das asas das abelhas, é o chamamento para que as operarias passem a concentrar os seus esforços na limpeza do disco.  Em poucas horas as larvas mortas das abelhas no disco assim como, os ovos e larvas dos forídeos serão removidos.
      Na caixa contaminada devem ser removidos completamente os potes de mel e pólen, só deixando as abelhas para que finalizem a limpeza. Após dias a colmeia contaminada pode ter seu disco de volta, agora já limpo. A alimentação pode ser artificial, mas sem excessos.

Um recurso emergencial, os repelentes naturais;

    Muitos vegetais produzem substâncias que as protegem contra os agentes do meio ambiente, os botânicos as denominam de metabólicos secundários. Um exemplo é o óleo de andiroba e óleo de copaíba extraída das plantas Carapa guianenses e Copaifera officinalis .
Esses óleos têm entre seus componentes substâncias repelentes para alguns insetos, funcionam bem nas formigas e forídeos o que é muito interessante, praticamente não afetam as abelhas. Nas infestações sem controle pelas mosquinhas o recurso é passar as substancias no fundo da caixa e próximo à entrada da colmeia. No caso especial das formigas, passar um algodão embebido sobre o acetato uma vez que é o local onde elas normalmente costumam fazer seus ninhos.  Esses dois óleos também são repelentes naturais do cupim.
Apesar da atenta abelha sentinela na entrada da colmeia, à ágil mosquinha penetra com facilidade no interior da colmeia.

Harold Brand

sábado, 16 de junho de 2018

O MISTÉRIO SOBRE AS PREFERÊNCIAS FLORAIS


Aí rolam fotos para lá a para cá, confirmam-se espécies, debate-se alguns dias e fica ´por fim a dúvida : Plantamos ou não a “planta X”?

Afinal porque em pastos melíferos comprovadamente com flora de espécies idênticas, disponibilizados para abelhas da mesma espécie, percebe-se uma aceitação diferente pelas abelhas? Será o solo? Será o clima? Umidade na terra? 
O que poderia determinar este comportamento diferenciado, esta variação de paladar ou preferência da mesma espécie de abelha pela mesma espécie de flora, observado em regiões diferentes?
 
 Sempre fiquei pensando nisso. Com certeza algo referente ao néctar, ao aroma, talvez influência do solo em que a planta se encontra. Mas o que exatamente?


Um dia achei uma explicação mais detalhada que resolvi compartilhar com todos.

Encontrei um livro chamado “Fisiologia Animal” de  Richard W. Hill, Gordon A. Wyse, Margaret Anderson, e os autores revelam vários ciclos biológicos muito interessantes que eu desconhecia, vou tentar explicar o que mais me interessou: “A energética da vida diária em situações de rotina e extremas”

Eles estudam várias maneiras de se mensurar o metabolismo dos organismos, e montam equações capazes de determinar a energia abastecida, a energia transformada em trabalho, a energia acumulada e a energia dissipada.
É uma análise de balanço energético biológico.
Tal como um equipamento mecânico, um carro ou qualquer outro dispositivo criado pelo homem, nos seres vivos a energia nos dois lados da equação tem sempre que ser iguais!
Descobriram também que animais que precisam de algum modo manter uma temperatura constante do seu sistema em relação ao meio ambiente, pagam uma conta cara! 
O que os biólogos chamam de homeotermia.
Então devido a essa homeotermia, os mamíferos ou aves que vivem em ambiente selvagem necessitam de 12 a 20 vezes mais energia do que lagartos ou cobras de pesos equivalentes vivendo no mesmo ambiente. 
Desse modo, animais que mantêm constante o calor em seu sistema biológico necessitam priorizar em seu dia a dia a busca por fontes de energia.
 A seguir vou transcrever/adaptar alguns trechos do livro “Fisiologia Animal” que explica muito bem esta  questão “energética ecológica” nas abelhas mamangavas, a partir do entendimento de outra pesquisa pertencente a Bernd Heinrich sobre custos e recompensas .

As diversas espécies de abelhas possuem vários modos de obter recursos para sobreviverem. O ato de procurarem alimentos é denominado forrageamento. 
Existe uma teoria, chamada de Teoria do Forrageamento Ótimo, que tenta explicar qual é o ótimo de forrageamento de uma abelha na obtenção de recursos alimentares, ou seja, quais recursos ela utiliza melhor ou quantos recursos são utilizados para satisfazer suas necessidades energéticas. 
Existe a variação da amplitude de uma dieta, ou seja, a variação na quantidade de recursos que compõe a dieta da abelha, e essa variação é chamada de Amplitude Ótima da Dieta.

 A pesquisa leva em conta a questão de aquisição do alimento, que requer um custo. 
E em paralelo a recompensa energética obtida no néctar. 
A pesquisa teve como parâmetro mamangavas forrageando um conjunto floral de Rododendros.

O voo de uma mamangava é muito dispendioso, assim como o das melíponas, devido a sua aerodinâmica peculiar.
Quando em vôo as mamangavas elevam de 20 até 100 vezes a sua taxa metabólica em relação ao seu repouso.
E para conseguirem voar precisam que os músculos das asas estejam a pelo menos 30ºC.
Assim, se a temperatura ambiente for abaixo de 30ºC, as mamangavas precisam produzir calor suficiente para pré-aquecer os músculos das asas e conseguirem voar
.
Vou abrir um parênteses aqui.
Consegui dados de uma pesquisa sobre abelhas Apis, que podem ilustrar estes valores:

As abelhas Apis melífera conseguem voar com uma variação de temperatura do ar abaixo de 15°C, como também acima de 40°C. Além disso, elas também apresentam durante o vôo a temperatura da superfície corpórea não distribuída uniformemente entre as três partes do corpo (cabeça, tórax e abdômen) (HARRISON, 1987).

Em um experimento realizado com abelhas (Apis mellifera) em um bebedouro com xarope e a temperatura do ar variando de 20,9°C a 27,2°C, a cabeça e o abdomen foram somente 3°C a 2°C acima da temperatura ambiente. E a temperatura do tórax de abelhas coletando água foi similar da encontrada em abelhas bebendo uma solução de sacarose. Porém, quando ocorria um aumento de teor de açúcar na solução de sacarose, houve também o aumento na temperatura do tórax (SCHMARANZER, 2000).
 Voltando às Mamangavas, durante o vôo, o próprio funcionamento dos músculos gera o calor necessário, mas quando pousadas, seja no enxame ou em uma flor, se a temperatura ambiente impuser uma perda de temperatura corporal, as mamangavas correm o risco de não conseguirem levantar voo.
Para conseguirem levantar vôo, elas mantêm a temperatura mínima realizando o famoso Buzzy enquanto estão pousadas.

 Acredito que as nossas meliponas devem apresentar o mesmo comportamento!!
 Isto também explica porque em invernos rigorosos, muitos meliponicultores já observaram e relatam mandaçaias ou uruçus saem que em vôo da caixa e caem no chão logo após a saída da caixa! Depois batem as asas e voltam a voar.
     
Considerando os custos energéticos tanto do voo quanto dos tremores, o gasto metabólico médio por unidade de tempo necessário para uma abelha forragear tende a aumentar à medida que a temperatura ambiente diminui.

Agora vamos analisar a recompensa energética pelo voo de forrageamento.

Uma abelha, do porte da Mangangava, voando em um ambiente a 0ºC chega a gastar até 12,5J por minuto de atividade de forrageamento. 
O néctar disponibilizado por uma flor de rododendro (por exemplo) equivale a 1,7J de energia. 
Assim, neste ambiente esta abelha teria que forragear de 7 a 8 flores de rododendro somente para atingir suas necessidades de operação. 
As mamangavas conseguem forragear com eficiência até 20 flores de rododendro por minuto.

Desse modo, conforme a temperatura ambiente, as abelhas buscam fontes com mais ou menos disponibilidade energética, de modo que possam trabalhar e ainda sobrar alimento para levar para suas colmeias. Pois na colmeia terão também que vibrar para produzir calor e manter a temperatura das células de cria.

Em tempos mais quentes aceitam forragear flores que disponibilizam néctar mais aquoso como das cerejeiras (0,21J por flor), mas no inverno ou em regiões frias, passam direto pelas cerejeiras e buscam por espécies florais mais energéticas.
Dependendo da espécie da abelha, ela tem um custo maior ou menor para forragear, e voarão diretamente para as flores que apresentem néctar com quantidade suficiente de frutose e/ou glicose, e que ofereçam um ganho energético.

Guardadas as devidas proporções, todas as espécies de abelhas melíponas se comportam de maneira semelhante.
E assim acho que se resolve O MISTÉRIO SOBRE AS PREFERÊNCIAS FLORAIS.

Meliponicultores já relataram astrapéias plantadas perto de lagos, que chegam a escorrer néctar, certamente o teor de frutose e/ou glicose do néctar desta astrapéia é menor do que outra astrapéia plantada em solo não tão encharcado.

E o mesmo se dá com diversas outras flores, umas plantadas em solos mais ricos em nutrientes, ou submetidas a maior exposição solar e portanto sob maior atividade metabólica.

Então, o meliponicultor cuidadoso, deve se atentar para o tamanho da espécie de abelha criada. Dependendo do seu tamanho e volume de indivíduos na área do meliponário, o pasto melífero poderia ter seu solo mais enriquecido antes do inverno, por exemplo. Ou escolher locais mais ensolarados para plantar aquela mudinha melífera especial!   
Com certeza abelhas escoteiras, quando vão em busca de alimentos, conseguem perceber estas diferenças num tocar de língua!!
É toda a complexidade de uma equação matemática na ponta da língua de uma abelha!!

Esse "serzinho" tão inteligente só pode ter sido criado por uma Mente Maior!!  

Medina    


segunda-feira, 2 de abril de 2018

EDITAL 6ª EDIÇÃO CONCURSO NACIONAL DE MÉIS DE ABELHAS NATIVAS AME-RIO/2018


A Edição 2018 do Concurso Nacional de Méis Melipônicos contará com o corpo de jurados, a saber:

Dr. Rogério Marcos de Oliveira - pesquisador da UFRB na área de meliponicultura e professor emérito de meliponicultura. (Promoveu e coordenou os primeiros concursos do gênero no Estado da Bahia)
Dra. Mônika Barth - pesquisadora da FIOCRUZ e especialista em análises laboratoriais de pólen e mel.
Chef Caco Marinho -  chef do DOC Casual Dinning -  
Eugênio Basile – fundador da Mbee Mel de Terroir, especializada em méis gourmet voltados para apreciadores ou para a alta gastronomia.

OBJETIVO
Selecionar como CAMPEÃO uma amostra de mel de abelhas Meliponini, com base em critérios sensoriais de melhor percepção do aroma, bouquet e sabor a vista dos padrões organolépticos do mel in natura, fresco e recém coletado de abelhas nativas.

REGRAS:
=> O concurso é aberto apenas ao mel de abelhas nativas (Meliponini), e poderão concorrer méis processados ou refrigerados.

=> Os concorrentes poderão inscrever seus méis em uma das 3 categorias de conservação, a saber: Refrigerado; Maturado ou Desumidificado.

=> A amostra de mel enviada tem que ser produto do meliponário do próprio concorrente.

=> Cada meliponicultor pode concorrer com amostras de diferentes méis.

=>As amostras serão recebidas de 01/04/2018 até 12/09/2018, e a remessa é por conta do inscrito.

=> Cada amostra deve ter no mínimo 400ml. Havendo caso de espécies de abelhas, reconhecidamente pouco produtivas, será aceita a metade do volume requerido, mas a mostra deverá ser ressalvada/justificada com a descrição da espécie conhecidamente de baixa produtividade de mel.

=> As amostras deverão ser acompanhadas com identificação (ficha), na qual deve constar: 
➤ Nome do meliponário
➤ Nome do Meliponicultor;
➤ Estado do meliponário;
➤ Cidade do meliponário;
➤ Espécie da Abelha Nativa;
➤ Tipo de conservação que estabelecerá a categoria de concorrência (Refrigerado; Maturado; Desumidificado);
➤ Data da coleta; (mês/ano aproximado)
➤ Florada predominante (opcional);
➤ Notificar se a amostra procede de uma única caixa ou de diversas;
➤ Foto/Imagem da entrada da caixa de abelha de onde procede a amostra enviada.
Enviar para por WhatsApp para (21) 99754-0887 
➤ Localização georreferêncial do ponto de coleta ou da cidade/bairro da coleta. 
- ( Dica: Usar o App: GPS Maps – Basta instalar, ligar a função localização do Smartfone – ativar o App GPS Maps, aguardar localização e clicar na seta azul, anotar e enviar latitude e longitude informada) 
Ou tentar o mesmo com o programa GoogleMaps.

TESTES
As amostras passarão por uma análise laboratorial, executada pela Dra Mônica Barth, que atestará a pureza da mesma (condição eliminatória – sanidade - diz respeito apenas à existência de contaminantes).
Características farmacológicas poderão ser levantadas pelo Laboratório da UFRJ, com o Pesquisador Igor

As análises se estenderão após a data do julgamento, mas ficarão em sigilo para fins de pesquisa. Caso algum concorrente queira ter acesso aos resultados totais de sua própria amostra, poderá se manifestar, e a análise será repassada privadamente.
A qualquer momento, se for detectado o mesmo mel inscrito em mais de uma categoria, todas as amostras serão desclassificadas sumariamente.

JULGAMENTO
De cada amostra participante será separada uma sub-amostra (CEGA) que será disponibilizada sob código, sem identificação sobre o produtor/mel/origem/espécie, aos jurados para degustação no dia 15/09. Cada amostra CEGA poderá ser avaliada por cada jurado, tantas vezes quanto o mesmo necessite para o estabelecimento das pontuações. O restante será arquivado como reserva técnica ou eventuais contra-provas e encaminhamento para atividades prêmio dos classificados.

Os jurados realizarão o julgamento simultaneamente no dia 15/09/2018 no Parque Municipal da Catacumba às 10 horas, em ambiente reservado e de maneira independente, sendo proibidos comentários dos mesmos até o final do julgamento.

Método de pontuação: inspirado em Análise Sensorial em Provas de Méis – Antônio Gomes Pajuela - 1996

Os parâmetros verificados pelos jurados de cada amostra serão classificados conforme a seguinte pontuação: QUALQUER VARIAÇÃO de NOTA entre “ZERO e DEZ”, até uma casa decimal. 
Conforme item “OBJETIVO” deste edital, os jurados darão seus votos baseados em critérios de palatabilidade pessoal, não levando em consideração características mercadológicas padronizadas para o mel de Apis melífera.

PONTUAÇÃO:
A pontuação de cada parâmetro será multiplicado por um peso referencial, a saber:
Transparência: x4 / Bouquet: x8 / Aroma: x8 / Sabor: x10
Assim a nota máxima de cada parâmetro será:
➽ Transparência: 40
➽ Bouquet: 80
➽ Aroma: 80
➽ Sabor: 100
➥ Resultando em uma nota máxima = 300 pontos

Variabilidade dos parâmetros:
Transparência: melhor pontuação do mais Cristalino; Transparente; Pouco Transparente; ao Opaco.
Bouquet: maior tempo de permanência do sabor agradável do mel depois de degustá-lo.
Aroma: melhor percepção, grau de aceitabilidade/agradabilidade.
Sabor: melhor grau de aceitabilidade/agradabilidade conforme "OBJETIVO".

A pontuação final de cada amostra será dada pela média aritmética, até duas casas decimais, da pontuação dos quatro jurados para cada amostra. 

CLASSIFICAÇÃO
Serão classificados 3 primeiros colocados de cada categoria. Portanto 9 amostras de méis ao todo.
O Mel Campeão será o que tiver maior pontuação, dentre os 9 selecionados.

PREMIAÇÃO
Os 9 méis classificados para final receberão Certificados referentes a suas colocações nas respectivas “CATEGORIAS”, bem como o Mel CAMPEÃO. Certificados emitidos pela AME-RIO (Associação de Meliponicultores do Rio de Janeiro) e FAAMERJ (Federação das Associações de Apicultores e Melipicultores do RJ)

Somente o detentor do Troféu de CAMPEÃO poderá anexar ao seu rótulo e divulgações o título:
“MEL CAMPEÃO NACIONAL  AME-RIO/2018"

O Mel Campeão será premiado com o Troféu de CAMPEÃO, uma Camiseta da AME-RIO e a devida divulgação na página da AME-RIO. O meliponicultor dono do “MEL CAMPEÃO NACIONAL AME-RIO/2018" também ganhará dois ingressos de acesso ao Bondinho do Pão de Açúcar, para serem usados até janeiro de 2019.

Aos demais vencedores, nas suas categorias, será permitido o uso da expressão:
Mel (1º, 2º ou 3º) lugar categoria (nome da categoria)” AME-RIO/2018.

Também como premiação, a AME-RIO também estabelecerá um primeiro contato para fins comerciais entre todos os premiados e a “Mbee Mel Terroir”, se eximindo de qualquer outra obrigação entre as partes. As partes poderão estabelecer, a partir da apresentação, uma parceria comercial (a critério e interesse de cada parte) para apresentação de um Mel Gourmet na lista de produtos da empresa Mbee.
   
Uma amostra do “MEL CAMPEÃO NACIONAL – AME-RIO/2018" também fará parte de uma criação de um prato do Chef Caco Marinho – com divulgação nacional.
  
Os casos omissos serão resolvidos pela Comissão Organizadora do Concurso.

REMESSAS DAS AMOSTRAS PARA:
Rua Visconde de Figueiredo nº 36 apt 406
RJ - Rio de Janeiro _ Tijuca
CEP 20550-050
Dúvidas - WhatsApp para (21) 99754-0887 

terça-feira, 20 de março de 2018

CRISTALIZAÇÃO DO MEL

Bem...pretendo com o texto abaixo tentar explicar a química do mel.
Apesar de criar abelhas meliponas, e o mel diferenciado delas ser o objetivo de tanta dedicação, não só minha, mas acredito da maioria dos meliponicultores, a química do mel tem sido um tema intrigante de compreender, pelo menos para mim. Uns dizem que mel não cristaliza, outros que cristaliza. Cor clara é melhor, ou escura? Ácido ou doce – aquece no sol para descristalizar ou em banho maria? Para mim, o assunto quanto mais explorado mais perguntas surgem. Assemelha-se a um labirinto em que as respostas às dúvidas tomam um rumo que no fim não tem saída, ou clareza.

Então depois de muito buscar respostas venho tentar expor os caminhos por onde já trilhei, e o que eles revelaram.

Tenho que deixar claro, que química não é minha especialidade, então vou tentar, apenas tentar, transcrever de modo gradual de dificuldade, e da maneira mais clara que conseguir, as respostas que obtive as minhas dúvidas. E também revelar algumas curiosidades que descobri nesta minha peregrinação por respostas.
Primeiro devemos entender que açúcar é um termo genérico, originado do árabe as-sukkar, significa similar ao grão de areia. Porém o termo foi emprestado para descrever diversos compostos químicos que adoçam. O termo popularizou e acabou sendo usado como denominação de diversas estruturas químicas diferentes. Cadeias de carbono abertas ou fechadas, simples ou compostas, com nomes químicos específicos, sendo todas elas chamadas carinhosamente de açúcar. Então temos por exemplo: sacarose; glicose; frutose; lactose; maltose; ribose; melitose; celobiose; gentiobiose; palatinose; nigerose; panose; rafinose; teanderose; turanose e muitos outros.
A história ensina que por ser um produto raro, o açúcar (de cana) era utilizado como remédio para várias maleitas - qualquer doença pouco grave - e na cozinha servia para temperar o amargo e o ácido de certos alimentos. Mas entre a grande maioria o que realmente era difundido como adoçante era o mel e o arrobe – mosto de uva concentrado.

A Cana de Açúcar (Saccharum officinarum) é uma gramínea originária da China, chegou na Índia 350aC, onde criaram as primeiras técnicas para tornar portátil o seu suco adocicado, ganhando status de uma especiaria doce. Os soldados de Alexandre o Grande trouxeram aquele “pó de mel” para a Europa. Mas Saccharum officinarum só resistiu como cultura no clima da Peninsula Ibérica. De lá ganhou as Américas e África nas viagens dos grandes navegadores.

Al-Aldaluz (Peninsula Ibérica) foi a primeira zona europeia a receber a cana de açúcar em 755, aclimatada em Ceuta e no Suez marroquino desde o século XII, mas devido ao sucesso a produção não foi suficiente, e recorria-se à importação do Oriente, tornando-se uma moeda forte.
Mas vamos focar o mel, mais antigo adoçante. Podemos inicialmente definí-lo como uma solução aquosa supersaturada de “açúcares”, que ainda contém vitaminas, ácidos e enzimas provenientes das abelhas, minerais, aminoácidos, substâncias aromáticas e grãos de pólen dos vegetais. O mais antigo adoçante da humanidade, encontrado pela "grande dama do mel” Eva Crane, que revela em seu livro “Honey, a Comprehensive Survey”, que os sumérios na Mesopotâmia por volta de 5000 a.C. já usavam o mel como fonte de alimento e remédio. Eva Crane também registrou que potes de mel com conteúdos intactos foram encontrados em escavações nas tumbas egípcias de New Kingdom, construídas há cerca de 3400 anos.
O mel é originado do néctar das flores, mas também pode ser originado do orvalho sobre os vegetais, da transpiração dos vegetais, das secreções de folhas ou frutos de certas plantas, excreções de insetos sugadores de plantas como as cochonilhas (muito frequentemente nos Alpes Europeus- mel de melato) e substâncias doces diversas (bagaço de cana-de-açúcar e frutas), restos de refrigerante no lixo humano também.
A solução supersaturada de “açúcares”, referida acima como composição do mel, é constituída grande parte por dois monossacarídeos, especificamente a glicose e a frutose e uma menor porção de um “açúcar” dissacarídeo – a sacarose.

A glicose e a frutose são “açucares” monossacarídeos que apresentam propriedades e características diferentes entre si, e os dois compõem aproximadamente 80% do mel. A percentagem destes dois monossacarídeos geralmente varia em torno da metade de cada, deste total de 80%, e podem ser considerados como um tipo de “açúcar invertido”. Conforme haja predominância de mais glicose ou de mais frutose na composição, as características físico-químicas da porção predominante também vão influenciar as características e comportamento do mel.
Todos os méis são líquidos viscosos quando produzidos pelas abelhas e enquanto permanecerem dentro da colmeia.

Mas devemos sempre lembrar que o mel é uma solução supersaturada, e toda solução supersaturada encontra-se instável por definição. O soluto encontra-se além do limite suportado pelo solvente, ou seja em desequilíbrio, pela atuação de algum agente. Enquanto o mel estiver armazenado dentro da colmeia a uma temperatura média na faixa de 30ºC a 37°C, permanecerá em estado líquido viscoso. Porém quando fora do seu ambiente original, a solução supersaturada buscará seu equilíbrio, especialmente em temperaturas abaixo das temperaturas médias originais, e por isso tendem a cristalizar espontaneamente, fenômeno esse que reduz a supersaturação da solução, mas que não altera os componentes do mel, e portanto não alteram suas qualidades e propriedades.
A natureza sempre busca a estabilidade. O mel quando retirado do seu meio natural, como disse acima, em algum momento pode retornar à estabilidade por meio da cristalização dos seus componentes que estavam em estado supersaturado. O agente que mais contribui na sustentação da supersaturação geralmente é a temperatura, principalmente dentro do enxame, mas não é o único!

Assim todo mel cristaliza em algum momento quando fora da colmeia. E isto ocorre com a perda de água por parte da glicose, que se transforma em “monoidrato de glicose” e toma a forma de cristal.

O processo de cristalização pode ser acelerado pela presença de uma “semente” dentro da solução supersaturada. Para os leigos, a “semente” aqui referida por químicos, nada mais é do que qualquer coisa que esteja mergulhada na solução supersaturada. A “semente” este componente estranho a solução ajuda pelo menos uma das moléculas do soluto a retornar ao seu estado natural. De alguma forma cede algum tipo de energia a uma molécula do soluto de modo que ela rompa a pouca instabilidade que a fazia se agregar ao solvente, facilitando o retorno ao seu estado de equilíbrio natural, no nosso caso um cristal sólido.

Assim são consideradas como sementes capazes de “ajudar” o início da cristalização do mel, a presença de grãos de pólen, micro pedaços de sujidades como cera ou partes de alguma abelha, até bolhas de ar podem servir como “sementes”! Além claro, da própria redução da temperatura ambiente, reduzindo consequentemente a energia agregante inicial do solvente.

Desde que ocorra a formação de um primeiro cristal na solução, a energia desta reação molecular inicia um desencadeamento exponencial do processo de cristalização por toda a solução.

Há uma pesquisa no Canadá, baseada em 95 amostras de mel, que aponta e defende as “sementes” como as únicas influências no processo de início da cristalização do mel...
Baseados nestas informações é que grandes entrepostos de mel costumam fazer ultrafiltrações no mel, para retirar qualquer presença de pólen, e assim garantir que o mel se mantenha mais tempo no estado líquido/viscoso na prateleira. Mas a falta da presença do pólen no mel comercial filtrado dificulta rastrear sua origem e atestar sua idoneidade. Na minha opinião tirar o pólen do mel já começa a afetar as suas qualidades. Prefiro que o mel cristalize!
No entanto há observações que não são só as “sementes” que podem acelerar a cristalização do mel. Outras substâncias podem alterar a velocidade de cristalização do mel. No caso do mel da flor de nabo forrageiro, do capixingui e bracatinga, o processo de cristalização inicia-se com muita facilidade e desenvolve-se de maneira rápida. Não achei o motivo, mas com certeza é devido a alguma das substâncias derivadas do vegetal, alguma vitamina, resina, hormônio que de certa forma podem alterar os balanços energéticos entre as moléculas do glicose e a água.
Em outros méis o processo de cristalização é naturalmente mais lento, como o mel de assapeixe, cambará, marmeleiro, vassourinha. Há casos observados e catalogados de que méis derivados de néctar com alto teor de frutose, poderão levar mais de 12 meses para iniciar a cristalização, é o caso do mel de laranjeira. A frutose é mais higroscópica (atrai mais a água) do que a glicose.

Um néctar diferenciado é o da espécie vegetal Iguaçu Sclerolobium sp (da família da Caesalpinaceae), tende a deixar o mel muito coeso/viscoso, gerando longos fios ao ser puxado. – Nomes populares: (taxi branco, ajusta contas, angá, arapaçu, cachamorra, cangalheiro, carvão de ferreiro, carvoeira, carvoeiro do cerrado, jacarandá canzil, mandinga, paáariúva, passuaré, pau pombo, taxi branco de terra firme, taxi branco do flanco, taxi pitomba, taxirana, taxirana do cerrado, taxizeiro branco, tinguizão velame, tinguizão veludo)
Uma curiosidade que achei interessante sobre a influência da temperatura no processo de cristalização do mel, é que existe uma faixa de temperatura ótima para iniciar. “Temperaturas entre 10ºC e 18ºC favorecem a cristalização, sendo 14ºC a temperatura ótima e abaixo de 10ºC o processo é retardado pelo aumento da viscosidade da solução, reduzindo a mobilidade dos núcleos de cristalização (EMBRAPA, 2006). Abaixo de 5ºC e acima de 25ºC o mel não cristaliza.” Isso pode explicar a resistência dos enxames de apis europeias ao inverno europeu! Fantástica esta informação!!

Não sei se este dado é verdadeiro para o mel de Meliponini, acredito que não seja, uma vez que seu teor de água é de 25% a 34%. 
Também é fantástico não termos esses dados tabelados de forma oficial sobre méis nativos, visto que fazem parte da nossa cultura desde antes dos navegadores europeus chegarem...
Agora vamos entender o processo de formação do mel!

Porém antes devemos entender com mais detalhes o que é mel.

O mel deriva do néctar das plantas, que por sua vez é uma mistura de vários “açúcares” diferentes, proteínas, hormônios, minerais e outros compostos, em uma solução aquosa. Em todo néctar o “açúcar” predominante é a sacarose.

E a sacarose é um dissacarídeo formado por dois açúcares simples (monossacarídeos): glicose e frutose.
80% do mel é composto por glicose e frutose, que foram originadas da quebra da sacarose do néctar, e este trabalho de quebra de um dissacarídeo em dois monossacarídeos é feito pela abelha. Não se pode esquecer que apesar da glicose e frutose representarem até aproximadamente 80% do total do mel, ainda são encontradas uma variedade de outras substâncias que estavam no néctar: outros tipos de “açucares”, vitaminas, ácidos, diversos minerais, substâncias aromáticas, leveduras, hormônios, aminoácidos e grãos de pólen dos vegetais. E todos estes componentes tem proporções e variedade associadas a cada espécie de flor visitada.

Cada espécie de abelha realiza a quebra da sacarose, processo conhecido pelos químicos como hidrólise, acrescentando uma enzima conhecida por invertase. Além da invertase, ainda há amilase e a glicose-oxidase, e não podemos esquecer que cada espécie de abelha também acrescenta outras substâncias características da sua própria espécie, dando um sabor e uma característica toda especial. 
É como se fosse um grande concurso de chefs Gourmet: cozinha Brasileira, Alemã, Francesa, Italiana, Australiana. Cada Chef usando suas técnicas e temperos secretos, e a despensa delas, este mundão de flores!! 
Cada prato uma arte única!
Então fazer mel é como cozinhar uma doce sobremesa com muitos ingredientes diferentes. Os ingredientes que estiverem disponíveis na sua geladeira ou despensa, acrescentando o tempero e técnica especial de cada Chef!!

Assim como nas grandes receitas de queijos, vinhos, podemos também dizer que a cada composição de solo, ou a cada clima diferenciado, que interagem com as abelhas e as flores forrageadas, dará origem a um mel único!
Voltando a composição do mel, para tentar entendê-lo melhor pela visão química. 
Para que o mel apresente-se como uma solução em estado liquido/viscoso, moléculas de água permanecem ligadas aos “açúcares”, principalmente por pontes de hidrogênio. No mel líquido/viscoso, a glicose da sacarose encontra-se ligada a cinco moléculas de água e a frutose da sacarose encontra-se ligada a três moléculas de água.
A sacarose do mel é exatamente a mesma sacarose que encontramos no açúcar da cozinha, ou mesa de café.

Então podemos deduzir que são as diferentes substâncias carreadas pelo néctar, proveniente de cada flor e que continuam no mel, um dos motivos da existência de uma variedade muito grande de tipos de méis.

Já a sacarose do açucareiro tem um sabor e características padrões, pois é originada específica e unicamente da cana de açúcar ou da beterraba açucareira. Sofrem processos de clareamento e/ou purificação, seguido de desidratação, resultando em uma série de tipos de açúcares basicamente homogêneos e padronizados em categorias. Então pode-se ter Açúcar bruto obtido por clarificação do caldo de cana-de-açúcar, sem uso de enxofre. Açúcar cristal obtido por cristalização controlada do caldo de cana tratado utilizando sulfitação e caleagem. O açúcar refinado obtido por um processo de refino do açúcar cristal. Açúcar líquido invertido obtido por hidrólise ácida controlada, resultando em uma mistura de glicose, frutose e sacarose, com cerca de 76% de sólidos solúveis. Açúcar mascavo proveniente do caldo da cana não submetido a tratamento de clarificação.
Temos que fazer mais algumas diferenciações entre o mel e outro tipo de açúcar: o “açúcar invertido”, que eu já citei mais acima. “Açúcar Invertido” é aquela calda viscosa, melada que varia do incolor ao tom de caramelo, e é usada para fazer doces, recheios e outros quitutes culinários atuais.

O açúcar invertido é uma calda viscosa composta de glicose+frutose em estado apurado, podendo ter alguma sacarose. 
O mel também é composto por (sacarose+glicose+frutose) tal qual o “açúcar invertido”. Eu arriscaria dizer que quimicamente o mel pode ser considerado um tipo de “açúcar invertido” composto.

Estou falando em “açúcar invertido” mas não expliquei. Então vamos lá.

A glicose e a frutose também podem ser referidas como dextrose e levulose, respectivamente. Estes dois açúcares são realmente os mesmos isómeros estruturais, pois eles têm a mesma fórmula química. Os nomes 'dextrose' e 'levulose' referem-se ao seu efeito sobre a luz polarizada no plano. Devido à diferença na disposição dos átomos, a dextrose gira a luz polarizada no plano para a direita, enquanto o levulose gira para a esquerda. Os prefixos 'dextro-' e 'levulo-' vêm do latim para direita e esquerda, respectivamente. O “açúcar invertido” tem muita frutose em sua composição, o que faz ter uma refração, quando testado com luz polarizada, mais a esquerda do que a solução de sacarose simples (água + “açúcar” de mesa). Por isso “açúcar invertido!

Voltando ao mel, os 80% da sua composição de “açucares” (sacarose+glicose+frutose) tem a mesma composição (sacarose+glicose+frutose) do “açúcar invertido”. Comparando apenas pelos nomes (sacarose+glicose+frutose) são os mesmos “açucares”. No entanto, porém, todavia .... os componentes (sacarose+glicose+frutose) do mel apresentam a cadeia estrutural das suas moléculas morfologicamente diferente da estrutura das cadeias de sacarose+glicose+frutose do xarope de “açúcar invertido”. 
É exatamente esta diferença estrutural que ajuda a acarretar uma diferença físico-química entre os dois. Dentre as diferenças físico-químicas mais marcantes é que o açúcar líquido invertido é mais higroscópico, absorve mais água. Já o mel sabemos que se derramado em um copo de água pemanecerá coeso por muito tempo até iniciar sua dissolução.
Voltando ao nosso mel. 
Já sabemos que dependendo do tipo de néctar que as abelhas tenham coletado com substâncias aromáticas específicas de cada espécie vegetal, haverá um reflexo na composição final do mel, alterando sabor, aroma, cor, textura, enfim as suas propriedades físicas, químicas, terapêuticas e organolépticas.

A abelha é o Chef deste Amuse-bouche (especialidade) de méis. Como a principal protagonista na mágica transformação entre o néctar e o mel, cada espécie de abelha, acrescenta suas enzimas características da espécie à composição do mel.

Para sua elaboração, um grupo de abelhas campeiras vai coletar o néctar das flores, e o transportam armazenado em um estômago, distinto do estômago normal (vesícula melífera). Aquelas enzimas específicas, já citadas, são então misturadas com o néctar; estas enzimas iniciam a degradação da sacarose do néctar em açúcares mais simples.

Para entendermos o processo de degradação da sacarose realizado pela abelha, vamos fazer um parênteses para entender melhor a sacarose.

A sacarose é um dissacarídeo; na verdade, consiste em dois açúcares mais simples diferentes, glicose e frutose, unidos. No estômago da abelha, as moléculas de sacarose são gradualmente divididas por enzimas invertase de cada espécie de abelha em glicose e frutose.

Sobre a glicose e frutose vamos simplificar os conceitos de cada molécula. Pode-se dizer que a frutose tem maior poder de adoçar, sendo o composto mais doce entre os carboidratos que ocorrem naturalmente. A frutose também é considerada como o açúcar mais solúvel em água (maior higroscopia) e portanto apresenta menor capacidade de se cristalizar. A frutose liberada encontra-se ligada a três moléculas de água.
 Já a glicose, por ser naturalmente um cristal, tem maior facilidade de se cristalizar quando presente em uma solução saturada (menos higroscopia), tendendo a retornar a sua estrutura cristalina inicial. A capacidade de solubilidade da frutose, em água a 20ºC, é quase o dobro da glicose. A glicose liberada encontra-se ligada a apenas uma molécula de água.
De volta a colmeia a abelha campeira regurgitará a solução de néctar, já em processo de quebra de moléculas, entregando para uma das abelhas operárias, que permaneceram na colmeia executando suas tarefas internas. Então a abelha operária continuará o processo iniciado pela abelha campeira - por até 20 minutos, continuando a misturá-la com mais enzimas e quebrando-a ainda mais.
Uma pequena percentagem de sacarose resistirá ao processo de quebra, mas a maioria é dividida em glicose e frutose.
Uma vez que o processo de quebra tenha alcançado sua capacidade máxima dentro da vesícula melífera, a abelha operária deposita o néctar no favo. Nesta etapa a solução pode ter até 70% de água. 
Então em seguida, outro passo importante no processo começa. 
O excesso de água deve ser evaporado para produzir a consistência/viscosidade do mel que todos nós conhecemos. As abelhas conseguem isso, ventilando o favo de mel com as suas asas, incentivando a rápida evaporação da água da solução. O teor de água da solução cairá para cerca de 17% a 20%, muito menor do néctar original.

A conversão do néctar aquoso para mel denso leva entre 1-3 dias.

Não podemos esquecer que mesmo depois de operculado o favo ou pote de mel, o processo de invertase e outros mais perduram por mais um tempo variável. É o amadurecimento do mel. Este tempo tem grande influência no sabor final do mel, bem como de suas características químicas. Como um bom queijo ou vinho, aguardar o término deste processo pode trazer grandes surpresas organolépticas, e diferenciar sua valorização no mercado.
O teor de água do mel é um dos fatores chaves de não estragar o mel de Apis Melífera.

Com uma taxa de 17% a 20% de umidade, o teor de água da solução é muito inferior ao do corpo das bactérias ou fungos presentes no composto. E assim como ocorre com as pessoas que vivem em locais muito seco, a vida costuma ser penosa ou até impossível, devido à rápida desidratação das mucosas. Para as bactérias e fungos isso é fatal. E assim a maioria das bactérias e fungos perdem sua capacidade de atuação.

Considerando uma escala de “0 a 1” para a necessidade de água mínima capaz de sustentar a atividade da maioria das bactérias, 0,75 de água é o valor mínimo necessário, e o mel tem um teor médio de umidade de 0,6.
Outro fator que ajuda o mel de Apis a evitar ataques de bactérias é a sua acidez. Seu pH médio é de cerca de 4; Essa acidez origina de uma série de ácidos, incluindo ácido fórmico e ácido cítrico, mas o ácido dominante é ácido glucônico, produzido pela ação de enzimas abelhas em algumas moléculas de glicose no mel. A maioria das bactérias prosperam em condições pelo menos neutras e não ácidas.

O peróxido de hidrogênio (Água Oxigenada - inibina) também é outro componente originado no processo de quebra das moléculas, produzido pela produção de ácido glucônico - isso também pode inibir o crescimento de bactérias.

Todas estas propriedades antibacterianas do mel de Apis são realmente potentes, e ajudam na aplicação tópica, como um curativo improvisado para feridas.
Cabe ressaltar aqui que os Meliponini (meliponas e trigonas) realizam exatamente o mesmo processo acima explicado para a produção de mel, no entanto diferentemente das abelhas apis melíferas, ao final do processo o mel apresenta geralmente teores de umidade próximos dos 25%. E mesmo assim o mel enquanto armazenados em seus potes originais, permanecem íntegros!

Retomando ao assunto da cristalização do mel, mas agora sobre os méis de Meliponini, deve ficar salientado que até estes méis, mais úmidos também cristalizam. É surpreendente pensar que tudo acima exposto sobre soluções supersaturadas, composições químicas, cristalizações foi retirado de textos e pesquisas maciçamente baseados em mel de Apis Melífera.
Os méis nativos de Meliponini também cristalizam em uma consistência semelhante a uma finíssima geléia, uma Mousse à la Crème quando submetidos a temperaturas mais baixas ... Esses doces patês, de méis nativos, apresentam sabores que explodem os sentidos! Sós ou acompanhados são um show a parte!

Na minha opinião caberiam muitas pesquisas em relação à cristalização do mel de meliponini, principalmente devido ao poder de conservação/preservação dentro do enxame, mesmo com sua alta taxa de umidade!! 
Será que todos estes conhecimentos do Mel de Apis Melífera se aplicam na mesma proporção ao mel de meliponini? O que diferencia? 
As pesquisas que encontro com maiores quantidades de amostras de mel são sempre amostras de mel de apis melífera, de diferentes espécies e regiões do planeta. Não encontrei respostas no mesmo nível de pesquisa para os méis de meliponini...

Podemos de antemão perceber que diferentemente do favo de mel das apis melíferas, o pote de mel dos meliponini são elaborados com cera composta com muitas resinas vegetais e outras substâncias segregadas pelas abelhas, o que determina a cor mais escura deste invólucro em relação ao favo de mel de apis. Certamente influencia na conservação do mel com a taxa de umidade maior, visto que estas resinas são as mesmas que originam a própolis. 
Enzimas e princípios antibióticos e flavonoides já foram isolados na composição de alguns méis de abelhas nativas por alguns pesquisadores brasileiros, e com certeza estas substâncias também têm grande contribuição na capacidade de conservação destes méis no enxame.
As qualidades terapêuticas do mel devido a presença dos antibióticos e flavonoides é um assunto extremamente longo, e não é meu foco no momento. Só para se ter uma ideia, o mais antigo documento da medicina egípcia é um velho papiro de 3500 a.C. chamado “Livro de preparação de medicamentos para todas as partes do corpo humano” (IORICH, 1981 apud STONOGA, 1990), onde o mel era incluído na maioria das preparações medicamentosas.

Se para o mel de apis melífera já existia tantas considerações no uso terapêutico do mel, muito mais relevante este assunto será quando focarmos os méis de meliponini. Vários trabalhos já começam a revelar diferenciais em relação ao mel de apis. Mas este assunto já foi abordado anteriormente. Pode-se ver algo sobre este assunto no atalho a seguir:


Ainda sobre a cristalização, pode-se dizer que especialmente no mercado nacional, a maioria da população desconhece que mel cristalizado necessariamente não significa ser mel adulterado com xaropes de “açucares”. Este desconhecimento é muito conveniente para a indústria, pois podem importar e mesclar méis ultrafiltrados de várias partes do planeta, impondo um padrão de sabor. Os pequenos produtores deveriam ter a obrigação de dominar estas informações, bem como difundí-las entre seus clientes, para o bem e valorização da rede dos produtores familiares.
Os grandes entrepostos ao invés de investir em conscientização, aposta em soluções para manter o mel líquido/viscoso na prateleira por mais tempo, e “agradar” a população.
Já falamos da filtragem, retiram sujeiras e todo o pólen do mel, com o fim de evitar a cristalização.
O processamento do mel comercial antes de chegar nas prateleiras também pode incluir um aquecimento controlado para destruir leveduras e dissolver possíveis cristais de glicose da solução.
O mel é geralmente aquecido a uma temperatura de 45ºC para desativar a enzima invertase, e reduzir a viscosidade. Outros processos elevam a temperatura do mel entre 50ºC a 60ºC por poucos minutos, resfriando rapidamente.

Por outro lado, como já vimos anteriormente a glicose se cristaliza com facilidade, então mel cristalizado também pode estar falsificado com dose de xarope de glicose comercial. 
Encontrei literatura que afirma que mel puro se cristaliza gradativa e homogeneamente, e com uma aparência fina. Enquanto que os méis adulterados que sofrem uma cristalização, apresentam cristais grosseiros como açúcar cristal, e o processo ocorre não homogeneamente. 
Mas também não é 100% segura esta análise informal, devido às diversas substâncias naturais que podem contribuir para alterar a conformação e aspecto do cristal.
Vamos explorar um pouco mais a temperatura. Temperaturas elevadas afetam a enzima diástase (ou amilase) negativamente, devido ao seu alto grau de instabilidade à presença do calor. Seu grau de ausência detecta possíveis superaquecimentos do mel comercialmente vendido, ou adulteração com açúcar comercial a base de amido. 
Em temperaturas ambientes, a enzima diástase (amilase) pode vir a deteriorar-se quando o armazenamento for por tempo prolongado. Então também pode indicar um mel com muito tempo de colhido.

Hidroxi-metil-furfural, este palavrão também conhecido por HMF – associado diretamente a ausência da atividade da enzima diástase. Até na estocagem, em temperaturas acima de 30º C, por períodos superiores a seis meses levam ao desdobramento da frutose do mel em uma molécula de hidroxi metil furfural e três moléculas de água, fazendo com que esse mel fique com uma camada superficial líquida e escurecida.

O que achei muito assustador foi que em pesquisas realizadas na UFSM fornecendo esse líquido escurecido para as abelhas provocou a morte de 100% dos enxames (TOMASELLI, 1999). E em ratos foi determinada como DL50 (dose letal capaz de matar 50% da população testada) por via oral doses de 3,1 g HMF/kg de peso. (LOUISE et al., 2009)

Mas não é só a temperatura que influencia no teor de HMF, “uso de embalagens metálicas para o mel e propriedades químicas como pH, acidez total e conteúdo mineral do mel” também fazem diferença. (FALLICO et al., 2004). A legislação brasileira permite o máximo de 60mg/kg, a européia o máximo de 40mg/kg, abrindo exceção de 80mg/kg para méis de países tropicais.

Manter o volume do mel processado em constante movimento durante a etapa de aquecimento controlado é imprescindível para evitar sobre aquecimento localizado, devido a alta viscosidade do mel bruto que dificulta a convecção do calor em seu volume total, zonas isoladas próximas a superfície de aquecimento acabam superaquecendo. Nem sempre este parâmetro é respeitado na indústria nacional, que costumam manter latões (geralmente de metal) de mel bruto em sala aquecida por períodos longos.

Aqui cabe uma curiosidade: HMF em méis de meliponineos mesmo aquecido é baixo, não chegando a 20% do valor permitido. 

Detectar adulteração de mel é uma tarefa complexa, e requer testes sucessivos que na verdade vão eliminando possibilidades, e aumentando/atestando a probabilidade de sua pureza e/ou qualidade. A tabela abaixo demonstra a aplicação de uma série de testes em 20 amostras de mel, para alcançar um resultado, que poderia não ser suficiente.

A adulteração no mel, infelizmente, é um problema mundial e muito difícil de ser detectado à primeira vista. Acredito que a dificuldade reside na composição básica do mel e do açúcar invertido serem quimicamente a mesma, apenas com diferenças estruturais. Como já foi exposto no decorrer do texto, grandes entrepostos costumam realizar ultrafiltrações no mel, e/ou expor a um tratamento térmico controlado. Só estes dois procedimentos já invalidam alguns testes “caseiros”. 
Os méis submetidos a esses tratamentos podem não ter a mesma qualidade do mel “integral”, cru ou em estado natural, mas não os classificam como falsificados. 
Não é o mel que eu escolheria, apesar de poder ser chamado de “puro”, eu diria que poderiam ser denominados méis “incompletos”.
O problema é tão grave que é possível adulterar o mel na sua própria origem. 
Alimentar um enxame com xarope de "açúcar" para aumentar a produção é uma modalidade perversa de adulteração do mel, e bem diverso do manejo de inverno. 
A abelha campeira irá coletar os “açúcares”, adicionar suas enzimas, repassar para abelha operária, que trabalhará a solução e a levará para o favo ou pote de mel. A solução amadurecerá sob a ação das enzimas das abelhas. Mas onde estão os pólens? E os sais minerais, resinas, hormônios, aminoácidos e outras tantas substâncias derivadas da fonte floral?
O mel até poderá ter um sabor característico da espécie de abelha que trabalhou o xarope, mas é mel?
Você poderá ver o produtor des-opercular o favo e centrifugar na sua frente, mas é mel?
É ético?

Por outro lado, podemos ter um mel cuja origem não é do néctar, e sim de sumos de frutas, ou de secreções de outros insetos. Também não será possível encontrar abundância de pólen nestas amostras. Mas não deixa de ser uma variedade de mel obtido de recursos naturais, com base em "açúcares", porém bem diferente do exemplo de adulteração acima. 

Resumindo:
Ciente de todas as possibilidades de origem do mel, das possibilidades de processamento do mel e possibilidades de adulteração do mel, podemos concluir que um simples teste caseiro não basta para determinar a qualidade e idoneidade do mel.

Mesmo assim selecionei algumas dicas comuns na literatura popular que podem indicar a adulteração do mel. Lembrando que mesmo para estes testes caseiros, precisa-se submeter a amostra a um conjunto de testes, só assim pode-se ter uma ideia se é ou não adulterado, dificilmente certeza !

- Experimente o seu mel. Se você pode perceber coisas como flores ou ervas é um indício positivo. Um bom mel também pode apresentar até para o leigo um sabor diferenciado, com notas de madeira, floral ou alguma outra que indique pelo menos a presença de substâncias derivadas do néctar. Mas não se esqueça que aromas naturais, artificias ou corantes podem enganar!
- Coloque uma pequena gota de seu mel no seu polegar. Se ele se espalhar, não é puro, pois o puro mel permanecerá concentrado.
- Adicione algumas gotas de vinagre em uma mistura de água e mel. Se estiver espumante, seu mel foi adulterado.
- Se o seu mel não "cristalizar" ao longo do tempo, ou na geladeira, é provável que seja ultrafiltrado, mas pode ter levado uma dose de frutose comercial, ou superaquecido.
- Misture uma porção de mel e duas de álcool, o adulterado se dissolverá mais rapidamente.
- Adicione algumas gotas de iodo a um copo de água e adicione um pouco de mel. Se o seu mel ficar escuro, foi combinado com amido de milho.
- Coloque um pouco de mel no final de um pavio ou fósforo e acenda-o. Se ele acender, melhoram as possibilidades de ser puro.
- Uma porção de mel puro sobre papel absorvente, não irá molhar o papel. 
- Coloque uma colher de mel num copo de água. Se dissolver é falso. O mel puro não se dissolve fácil na água e vai afundar no fundo do copo.
- Adulterar ou vender mel adulterado é um crime contra a economia popular, tipificado pela Lei nº 1.521 de 1951 - Art 2º  § V !!!
Não tenha preconceito de méis cristalizados, apesar de não ser garantia total de bons antecedentes, aumenta muito a margem de segurança!!!

Mas na verdade concluo que atestar a pureza do mel é uma tarefa muito difícil, seja ele de apis ou de meliponini, pois o volume de variáveis que podem influenciar nos resultados dos testes, sejam eles populares ou técnicos, é muito grande.
Duas formas de se conhecer a autenticidade do seu mel são através de análise séria em laboratório especializado ou conhecer a idoneidade e ética do produtor.

Também concluo que o fato das pessoas preferirem o mel no estado líquido/viscoso é muito conveniente para fornecedores não idôneos. Pois as técnicas que são utilizadas pela indústria para aumentar o tempo de prateleira do mel em estado líquido/viscoso (ultrafiltração/aquecimento), agrandando o público, acabam gerando um produto em que são necessários testes laboratoriais cada vez mais apurados, para conseguir diferenciar os méis puros e processados dos méis adulterados.
Essa rejeição nacional pelos méis cristalizados facilita que pessoas de má fé se aproveitem para agir.
A atual preferência popular da apresentação do produto tem exigido a busca por novos parâmetros capazes de atestar o produto a ser oferecido no comércio.
Isto pode ser visto na reportagem apresentada na internet do programa Rotten (O Mel):


É possível notar que 90% das informações que coletei sobre propriedades do mel são referentes a pesquisas do mel de Apis melífera, e que nosso mel nativo está à margem destas pesquisas. Muitas informações são aplicáveis, mas dezenas não.

Com certeza para todos os parâmetros acima expostos e já exaustivamente pesquisados sobre o mel de apis, quando tentarem aplicar aos méis de meliponini, descobrirão que serão necessárias novas pesquisas, especificamente direcionadas para cada um dos tipos de méis das quase 400 espécies de abelhas nativas catalogadas.
Carecemos de um estudo muito mais profundo de nossos méis nativos, que definam e proponham os parâmetros particulares do produto nacional. 
Temos que reconhecer que há pesquisadores tentando mudar esta tendência, como Jerônimo Villas-Boas, com trabalhos como: Parâmetros físico-químicos propostos para controle de qualidade do mel de abelhas indígenas sem ferrão no Brasil.
É muito importante que mais pesquisadores se incentivem a pegar este rumo em suas pesquisas. A estrada é longa, e considerando as quase 400 espécies de abelhas nativas, há muito ainda por descobrir e reescrever para os méis meliponíneos.

A última conclusão que posso tirar disso tudo que pesquisei é que o mel integral (cru ou em estado natural) é o mais saudável e nutritivo. No entanto é também o mais difícil de achar no comércio.
Aconselharia ao produtor nacional de mel de apis melífera lutar. Mas não por maior volume de produção, mas por certificações que garantissem sua idoneidade para um produto integral, cru, natural, não filtrado, não aquecido, rastreável e portanto muito mais valorizado.
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Enquanto aqui no Brasil não pudermos dispor de uma solução a este nível, temos uma alternativa caseira. Basta seguir aquele velho ditado que diz que o gado só engorda na vista do dono. Então o bom mel é aquele produzido na vista do dono do enxame. 
E aqui entra a nossa imbatível meliponicultura. Qual a melhor maneira de você ter mel produzido embaixo do seu nariz e coletado por você sem roupas especiais? Quais abelhas que têm as caixas mais leves, pequenas e portáteis? Quais abelhas são inofensivas e podem conviver com crianças e animais próximos? Qual abelha pode se ter na janela ou varanda? Quais abelhas você pode coletar mel até com uma seringa, dispensando o uso de centrífugas?

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Medina

Referências:
Dissertações 
The-Chemistry-of-Honey
O MEL E SUAS CARACTERÍSTICAS - Nivaldo César ALVIM
GLICÍDIOS NO MEL - Ricardo Felipe Alves Moreira
Avaliação da cristalização de mel utilizando parâmetros de cor e atividade de água
ESTUDO DA DESCRISTALIZAÇÃO TÉRMICA DO MEL SOB INFLUÊNCIA DA AGITAÇÃO - Vieira, Luana Reis
Parâmetros de avaliação da qualidade do mel e perceção do risco pelo consumidor
Determinação da qualidade do Mel - Garcia
Propriedades físicas e químicas do mel de Apis mellifera L. - Abadio
DETERMINAÇÃO DA AUTENTICIDADE DOS MÉIS VENDIDOS NAS FEIRAS LIVRES E COMÉRCIOS POPULARES 
HIDROXIMETILFURFURAL E ÍNDICE DE DIASTASE COMO INIDICADORES DE QUALIDADE DE MÉIS - Coringa E.
Páginas na Internet
http://honeypedia.info/honey-ingredients-a-comprehensive-list
http://honeypedia.info/acacia-honey