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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Mandaguaris cultivam fungos promissores

Transcrevo abaixo uma pesquisa muito interessante sobre abelhas sem ferrão de Cristiano Menezes. 
Faço isso para deixar registrada e facilmente disponível esta pesquisa surpreendente.
Att
Medina
  
0mandaguari_CristianoMenezes_abre
Todo mundo sabe que muitas espécies de formigas cultivam jardins de fungos em seus formigueiros. É de onde tiram seu alimento. Elas não vivem sem os fungos e os fungos não existem sem elas, logo ambos mantêm um tipo de relação chamada pelos biólogos de simbiose, com benefícios para todos. Mas uma abelhinha sem ferrão cultivando fungos? Isso é novidade absoluta para a Ciência! Acaba de ser publicado o primeiro artigo científico revelando esta descoberta, feita quase por acaso quando o entomólogo Cristiano Menezes ainda fazia seu doutorado na Universidade de São Paulo (USP).
Cristiano estudava o desenvolvimento da abelhinha nativa sem ferrão mandaguari (Scaptotrigona depilis) desde a postura e eclosão dos ovos e notou o crescimento de um fungo branco ao redor das células onde ficam as larvas, antes de se transformarem em abelhas adultas. Chegou a temer que o fungo infestasse as larvas e causasse problemas, mas então percebeu que as larvas se alimentavam do fungo. Para ter certeza disso, fez alguns testes, monitorando as larvas mais de perto: metade delas recebeu um alimento estéril sem o fungo e a outra metade, com o fungo.
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Pronto! Estava confirmado: os fungos não crescem nas células das larvas por acaso, eles são a comida das futuras abelhinhas! As larvas criadas em laboratório, com o alimento mais os filamentos do fungo, apresentam uma taxa de sobrevivência de 76%. Já a maioria daquelas que recebem só o alimento, sem o fungo, não sobrevivem: só 8% completam o desenvolvimento.
“É a primeira vez que se encontra um caso de simbiose entre abelha e fungo”, confirma o entomólogo. “Já existia um relato, no Brasil, de simbiose entre uma abelha (mandaçaia) e uma bactéria, mas não se avançou nesse assunto, desde então. Agora (após a confirmação da simbiose entre o fungo e a mandaguari), o grupo da pesquisadora Mônica Pupo, da USP de Ribeirão Preto, está encontrando uma série de outros microrganismos associados a esse sistema. Pelo visto, a nossa descoberta é apenas a ponta do iceberg”.
3Larvacomfungoaoredor_CristianoMenezes
O artigo com a descoberta e as pesquisas feitas para confirmar a relação entre as abelhinhas e o fungo saiu nesta quinta feira, 22 de outubro de 2015, na revista científica Current Biologyda Cell Press (EUA), assinado por Cristiano Menezes, Ayrton Vollet-Neto, Anita Jocelyne MarsaioliDavila ZampieriIsabela Cardoso FontouraAugusto Ducati Luchessi e Vera Lucia Imperatriz-Fonseca. As instituições envolvidas na pesquisa são Embrapa Amazônia Oriental, USP, Universidade de Campinas (Unicamp) e Instituto de Tecnologia Vale (ITV).
O fungo de filamentos brancos associado à abelhinha mandaguari é do gênero Monascus. Trata-se de um gênero de fungo pesquisado na Universidade de Santa Catarina (UFSC), por exemplo, por sua atividade antimicrobiana, contra três dos piores contaminantes de alimentos: Staphylococcus aureusEscherichia coli e Salmonella enteritidis. É um gênero de fungo igualmente estudado como biocolorante para alimentos, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). E os pesquisadores suspeitam que outras espécies de abelhas sem ferrão também mantêm simbiose com fungos similares.
2fungoCristianoMenezes
Pelo visto, além de garantir a polinização especializada de muitas flores nativas; além de produzir diversos tipos de mel com propriedades diferenciadas e própolis valiosos, as abelhinhas brasileiras ainda nos reservam muitas surpresas promissoras no universo das moléculas com potencial para se transformarem em medicamentos e novos produtos! Dedicar tempo e pesquisa à conservação das nossas abelhinhas, portanto, não é só um hobby ou assunto exclusivo de amantes da natureza: é investimento no futuro!
Fotos: Cristiano Menezes (de cima para baixo: abelhinha mandaguari; ovo depositado em uma célula de crescimento da colmeia; larva cercada por fungos brancos e fungo Monascus ao microscópio)

terça-feira, 13 de outubro de 2015

REFLEXÕES SOBRE O FUTURO COM ABELHAS SEM FERRÂO

Posto abaixo uma texto de nosso amigo Homem das Abelhas Australianas: Bob Luttrell.
Ele em sua contínua pesquisa por melhorar o manejo de suas abelhas sem ferrão vem sempre nos brindando com novidades.
Nesta postagem redigida por ele, nos apresenta um novo modelo de caixa com aperfeiçoamentos e uma nova maneira de coletar méis das nativas.
Em breve ele vai nos disponibilizar um vídeo com esta nova técnica de coleta de mel.
Att
Medina
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Um caminho em forma diferente e progressiva.
Por Bob Luttrell (B Sci Agr UQ)
Há muitas caixas, muitas ideias, e muitas maneiras de fazer as coisas no mundo das abelhas sem ferrão.
A ideia de ninguém vai ser, nem ficar o melhor. Somente por meio da inventividade e engenhosidade dos meliponicultores, com suas mentes abertas e capazes de observar as suas abelhas, vai haver um genuíno progresso em relação ao bem-estar de nossas abelhas sem ferrão.
Acima de tudo, nunca tenha medo de experimentar. Nunca tenha medo de sonhar com o que poderia ser.
Uma caixa completamente moderna para abelhas sem ferrão.
  A Aussie INPA Mk 2
Eu desenvolvi esta caixa ao longo de vários anos, a forma evoluiu de retangular a quadra, sempre com o objetivo de promover o conforto das abelhas, e facilidade de uso pelo meliponicultor.
Esta caixa é modular, com componentes separados, dos quais pode-se escolher qualquer um dos principais alças para tomar qualquer posição na desdobra de uma nova colônia.

O espaço da abelha é pela primeira vez reconhecido e utilizado. Tenta-se construir com recursos de design uma maneira de resistir aos ataques de moscas syrphid, um dos principais parasitas de abelhas sem ferrão.
A ventilação é realizada de baixo para cima, e ativada pelas abelhas conforme suas necessidades. Uma cobertura resistente serve de sombreamento blindagem ao calor, protegendo a colônia em clima quente, reduzindo o risco de perdas.
Madeira de alta durabilidade é utilizada na manufatura, e todos os componentes internos de metal são de aço inoxidável para maior durabilidade e para evitar a contaminação com metais pesados.
As alças são mergulhadas em resina de madeira e cera de Apis derretidas. Entre as alças há separadores emparelhado, um é fixo à parte inferior da alça superior, e o outro, maior e solto, na parte superior da alça de baixo. Estes permitem uma divisão limpa sem derrames de mel ou rompimento dos potes de pólen.
Os danos que ocorriam na estrutura do enxame durante as desdobras expunham material atraente para as moscas syrphid e forídeas e, mais recentemente aos pequenos besouros de colmeias.
A divisão seca é muito mais segura para as abelhas, resulta em menos trabalho para elas, durante o reparo e limpeza após a desdobra.
A recuperação é muito mais rápida. Nas fotos abaixo, a figura 1 mostra uma alça no estágio ideal, pronta para receber em sua parte superior uma nova alça vazia, pode-se observar o espaço de circulação das abelhas. 

E a figura 2, mostra uma alça pela técnica construtiva antiga, fundamentalmente diferente das atuais propostas.

A estrutura do ninho progride em direção ao painel de inspeção até ocupar as alças superiores. A alça superior da caixa de uma colônia pode ser removida para ser utilizada como nova alça inferior, colocando-a perfeitamente em nova placa de fundo, uma vez que a circulação das abelhas é mantida pelo separador fixo.  Na desdobra adiciona-se um separador solto na alça inferior. Ambas as colônias rapidamente crescem para cima, em suas alças através do seu caminho central preferido, podendo-se observar o desenvolvimento de cima, por meio do painel de inspeção da caixa.
Esta caixa traz um elemento de gestão de abelhas sem ferrão, muito familiar aos apicultores. O uso de armadilhas para insetos-pragas, mesmo a alimentação estratégica torna-se possível dentro da colônia, o aspecto e a saúde da colônia pode ser avaliada sem perturbar as abelhas.
Com a descoberta da doença bacteriana em abelhas sem ferrão, a visibilidade, possibilitada em colônias nessas caixas, através do painel de inspeção, oferece condições para vistoriar a presença de possíveis infestações na colônia.

A última novidade em arranjos de potes de mel de abelhas sem ferrão.
Eu já mostrei que tanto carbonaria Tetragonula, e Tetragonula hockingsi, armazenam seu mel em potes dispostos em quadros horizontais, quando a colônia está forte e em produção.

Até os dias atuais, estes quadros tem sido construídos pela inestimável técnica da prototipagem, usando impressoras 3D. Um pedido de patente foi arquivado no ano passado, e torna-se definitivamente disponível em breve.

Isso nunca foi realizado com abelhas sem ferrão na Austrália antes, nem no mundo, pelo que pude pesquisar. Posso dizer que houve aventuras neste sentido, em potes plásticos de mel improvisados e sucção a vácuo, para coleta de mel dos potes em qualidade e em condições de higiene.
A atual proposta deixa em muito nossos esforços para trás até o momento. Com estes quadros, espero trazer nossas abelhas sem ferrão para o século 21. O mel poderá ser extraído, filtrado durante a extração e ser engarrafado para consumo imediato. Como sempre aconteceu com esta classe de méis, ele necessitará de refrigeração para armazenamento de longo prazo. Eu acredito que o tempo vai mostrar que existirá uma solução, mesmo para isso.
A estrutura proposta é uma estrutura de grade simples que orienta o armazenamento das abelhas, e fornece uma base, e a padronização para uma operação de perfuração posterior. Atualmente são utilizadas impressoras 3D, mas em um próximo passo os quadros serão produzidos usando moldagem por injeção.
Coletar o mel passará a ser muito simples com esses quadros de mel feitos especialmente com propósito de armazenar, e possíveis de serem empregados em quase qualquer tipo de caixa de abelhas. Basta romper os topos dos potes de mel usando uma faca pontiaguda, ou o bloco de pregos padronizados com o quadro de potes, e em seguida, invertendo-o em um coador sobre um recipiente para drenar.
Para grandes quantidades, eu fiz um potente extrator que remove o mel muito rapidamente, filtra e facilita o engarrafamento. Os componentes deste extrator são projetados serem limpos em uma máquina de lavar louças.

Nada disto é definitivo, tudo vai progredindo com melhores ideias que vão surgindo. Com referência a caixa, eu me comprometo a manter a compatibilidade de uma versão para a próxima. Esperemos que o mesmo ocorra com os quadros de coleta. Com eles, no entanto, é como trabalhar com as abelhas Apis há 100 anos, no alvorecer de uma nova era. Muita coisa pode mudar se as pessoas aproveitarem a oportunidade.
Em minha página, manterei novas informações


Detalhes da caixa em:

terça-feira, 15 de setembro de 2015

POLINIZAÇÃO DE IDEIAS EM UM JARDIM DO CLUBE MILITAR

Semana passada tive o prazer de conhecer um jardim diferente. 
No coração do Jardim Botânico, bairro tradicional do Rio de Janeiro, há um clube pelo qual sempre cruzo quando vou à Barra da Tijuca. Com a entrada recuada em relação ao passeio, é discreto e passa despercebido a visão desatenta dos transeuntes.
O clube a que me refiro é o CLUBE MILITAR.

Posicionado bem a frente da entrada do Parque Laje, abriga em seu terreno: piscina, quadra de esportes e muitos outros ambientes típicos de um clube qualquer, mas em seu interior também cultivam um jardim de rara beleza: um "Jardim de Flores da Experiência"!
Deixe-me explicar melhor...
Neste Clube existe um grupo de aproximadamente 70 senhoras animadas, de 68 a 90 anos de idade muito ativas conscientes e cheias de vida, que se reúnem semanalmente para se manterem antenadas em relação as atualidades.
Dentro deste contexto fui convidado pela Sra. Edna, coordenadora cultural desse lindo jardim,  para realizar uma palestra-aula sobre as abelhas nativas.

E assim resolvi falar sobre "Polinização de Ideias, Abelhas Sem Ferrão e Sustentabilidade".
O mais incrível é que nossas Abelhas Nativas em qualquer lugar ou público a que sejam apresentadas, sempre causam espanto e surpresa.
O público se manteve atento e interessado, fazendo muitas perguntas.

O mais gratificante nessas palestras, para mim, é quando tenho notícia de que consegui conquistar pelo menos um ouvinte ... 
E ao final da tarde, ainda dentro desse aconchegante jardim, dentre muitas manifestações, uma foi mais incisiva.
Uma das ouvintes, estando muito tocada pelas informação sobre a importância das Abelhas Nativas, declarou que iria retirar todo o cimentado que cobre o quintal de sua casa e substituir por arvoredos e trapadeiras, e em uma segunda etapa, colocar uma caixinha racional de Abelhas Nativas. Foi uma satisfação em ter este retorno!
Para levar mais emoção à palestra, nosso atual Presidente, Gesimar, levou uma "Caixa Didática".

Trata-se de uma caixa idealizada, construída e que nos foi ofertada pelo Grupo "SOS Resgate de Abelhas Sem Ferrão". Foi um ótimo presente, pois trouxe praticidade nesse tipo de exposição, e pretendemos carregar sempre em nossas próximas palestras. 

A caixa, de excelente acabamento, permite que o público tenha acesso visual a toda a estrutura do ninho, e ao mesmo tempo protege as abelhas da luminosidade, quando estiver fora de uso. Muito prática e sem sustos, para abelhas e público.

A caixa passou de mão em mão por todo o jardim, e no final ficou exposta para apreciação de todos. Aquelas senhoras realmente adoraram ver a beleza e delicadeza das abelhinhas, e ficaram surpreendidas que apesar de pequenas e frágeis, são tão importantes para a a nossa vida e para a nossa economia.
Ao final fomos carinhosamente recepcionados com um delicioso lanche e eu recebi das mãos do simpático Cel. Amalry, responsável pelo Departamento Cultural do Clube, um Certificado de agradecimento.

E assim vamos de pouco em pouco polinizando ideias !
Medina

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A ABELHA É NATIVA; O MEL É CLANDESTINO

Reproduzo aqui uma matéria do "O ESTADO DE S. PAULO" muito boa sobre a dificuldade dos meliponicultores.
(caderno Paladar de out/2011)
Boa Leitura 
Medina


As abelhas indígenas sem ferrão (Meliponíneas) são nativas do Brasil e sempre voaram por aí, de flor em flor, produzindo mel de ótima qualidade. 
Ops, mel não, porque o alimento produzido pelas abelhas indígenas não pode ser chamado de mel. 
A legislação vigente se baseia nos padrões físico-químicos do mel produzido por abelhas estrangeiras (Apis mellifera e Apis mellifera scutellata) – esse que está nas prateleiras de qualquer supermercado. 
Para ser “considerado” mel, o produto das abelhas indígenas deveria ter umidade máxima de 20% – mas chega a 35% – e, no mínimo, 65% de açúcares redutores (tem 50%). Por isso, o “mel” de jataís, mandaçaias, borás, uruçus e tubunas continua desconhecido. 
E clandestino.

By - Janaina Fidalgo 
Fosse uma questão de saúde, a produção de “mel” de abelhas indígenas sem ferrão (Meliponíneas) deveria ser incentivada, porque ele tem poder antibiótico maior que o da introduzida Apis mellifera. 
Se se tratasse de uma preocupação ambiental, as abelhas nativas seriam protegidas como importantes polinizadoras. 
Sendo o gosto o assunto, o mel ácido e menos doce de tiúbas, manduris e tubis tiraria o paladar do marasmo.
 Porque,então,apesar de tantos predicados: 
1) o mel de abelhas indígenas não está à venda em todo canto; 
2) tanta gente desconhece a existência de abelhas indígenas; 
3)há aspas abraçando a palavra mel neste texto? 
Culpa de um regulamento de 1952 que baseia nas característicasdomel deabelhasmelí- feras (Apis mellifera) os padrões de identidade e qualidade para classificar o produto. 
Como a composição do de abelhas indígenas é diferente – é mais líquido e tem menos açúcares, este não pode ser chamado de mel. 
Brasileiro – e clandestino. “Pura questão burocrática.
 México e Venezuela têm o mesmo problema”, diz Paulo Nogueira Neto, professor titular emérito da USP e especialista em abelhas indígenas sem ferrão. “Como há legislação sobre a criação, agora você pode criar e até vender ninhos. Só não pode comercializar. Por isso o mel das Meliponíneas é vendido clandestinamente.” (Até 2004 o manejo destas abelhas, espécies selvagens, era proibido.) 
Por se organizarem em colônias menores, as abelhas indígenas produzem menos mel que a Apis – e ele custa dez vezes mais. “Quem conhece, não se importa de pagar mais”, diz Marilda Cortopassi-Laurino, pesquisadora do Laboratório de Abelhas da USP.
Enquanto o Brasil não tem uma lei que respeite as características do mel das Meliponíneas, alguns produtores têm testado a desumidificação deste produto. No entanto, ainda não há pesquisas que comprovem se o procedimento não compromete o poder antibiótico e as qualidades gustativas. 
“Não tenho nada contra a desidratação em si, desde que seja assumida. O que não admito é obrigar a desidratar”, diz Roberto Smeraldi, da Oscip Amigos da Terra Amazônia Brasileira



Jataís herdadas e bem viajadas
By - Neide Rigo, nutricionista
Nossos amigos gaúchos resolveram se mudar para Barcelona e queriam porque queriam que as abelhas ficassem comigo. Não encontrei regulamentação sobre o transporte de animais que mencionasse abelhas nativas sem ferrão. Pensamos em várias possibilidades de locomoção, todas inviáveis.
Consultamos especialistas em meliponas e um deles nos disse que o melhor para elas seria deixá-las no escuro, em local fresco, que elas dormiriam e nem sentiriam a viagem. A maior prejudicada fui eu, que nunca havia viajado 18 horas de ônibus e sem a companhia de ida, que voltou de avião. 
Alguém tinha de ficar solto para tirar o outro da cadeia. A paranoia já tinha começado. 
E, embora as três caixinhas estivessem bem acomodadas no porta malas, fiquei o tempo todo apreensiva. E se fossem mais espertas do que supúnhamos, fizessem buraquinhos na caixa e fugissem? E se um certo zumzum-zum ficasse audível e o ônibus precisasse parar? Chamariam a polícia para vistoriar o bagageiro e eu seria presa? Crime ambiental, inafiançável. Tantas horas de paranoia, mas chegaram bem.
Na primeira semana estranharam a direção do vento, os caminhos que levavam às flores e os esconderijos do pólen. 
Furaram todos os botões de ipomea da vizinha, ignoraram as flores de manjericão e passaram batidas pelas flores de feijão.
Hoje, trabalhadeiras, polinizam tudo – o feijão mangalô produz como nunca. Ainda fazem zum-zum-zum e mel. 
E que mel! Ácido, fluido, floral. Alquimista nenhum sabe fazer. Por esse mel, faria tudo de novo. 




DEPOIMENTOS

Paulo de Abreu e Lima membro do MSc Food Culture
“Temos ingredientes incríveis, como a grumixama, as vieiras nativas da Ilha Grande, o azeite extravirgem de patauá, as pimentas baniwa da Amazônia, o arroz vermelho do Vale do Piancó e muitos mais. Acredito no agronegócio de qualidade, no trabalho com a cadeia completa, da semente ao produto final” 



Edinho Engel chef do Amado
“Precisamos de uma legislação para produtos artesanais alimentícios que seja ordenadora, mas não impeditiva. E estimule os produtores artesanais com descontos tributários e incentivos fiscais como forma de afirmação de nossa identidade cultural gastronômica. Na Bahia, muitos micro produtores vendem seus produtos em feiras livres ou barracas, mas se quisessem vendê-los de forma adequada não conseguiriam. 
Exemplos? Camarões secos, lambretas, siris, caranguejos, farinha de mandioca, goma, carimã, maturi, licuri, queijos de cabra e outros de massa crua”



domingo, 12 de julho de 2015

ABELHAS D'ÁGUA

Um dia desses parei e fiquei pensando sobre o caos que parece ter se instalado no que conhecíamos das estações do tempo. Havia tempo de calor e frio, de seca e chuvas, tudo era bem demarcado. Fui me lembrando da minha infância, em que agosto era tempo de pipa (ou papagaio) pois predominavam os ventos. Festa junina era tempo de frio e portanto de comidas mais quentes, canjica, caldo verde etc ...

Mas tudo está mudado .... claro que é um fenômeno de grande proporções. Cientistas debruçam sobre pesquisas em busca das causas, muitas teorias surgem .... e aí, embalado em minhas lembranças, e sem pretensão científica nenhuma, me dei ao direito de filosofar sobre o assunto. E como sou meliponicultor, pensei nas abelhas nativas ... tão pequenas vivendo nestes novos tempos!!
Quanto será que estão sofrendo? 
Será que elas poderiam ser treinadas para tirar o açúcar do néctar e dar água além do saboroso mel? 
Mas cheguei a conclusão que elas já nos dão água, nós que não percebemos ....
Nesta linha de pensamento, vou tentar explicar porque nossas abelhas nativas poderiam ser denominadas também como
 ABELHAS D'ÁGUA...
Vamos usar a imaginação e dar um mergulho neste rumo !

É uma prosa meio comprida, mas acho que dá para explicar, se vocês tiverem paciência.
Bem ..... Muito se fala hoje em dia sobre meio ambiente e sustentabilidade, e o assunto ficou mais em voga após esta forte estiagem que vem derrubando os níveis de água nos reservatórios, principalmente da região sudeste. São Paulo especificamente está passando por um aperto hídrico, acredito, jamais vivido por gerações anteriores.
A população cresceu, a economia cresceu e o desperdício de água também, então para que possamos nos moldar aos novos tempos temos que ser sustentáveis. E o que vem a ser exatamente o conceito de DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL tão exposto na mídia?
“Entende-se por desenvolvimento sustentável aquele que procura satisfazer as necessidades das atuais gerações sem comprometer recursos destinados às futuras.”
Essa definição surgiu na Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pelas Nações Unidas para discutir e propor meios de harmonizar dois objetivos:
1º - O desenvolvimento econômico
2º - A conservação ambiental.
 Hoje já ultrapassamos 7 bilhões de seres humanos sobre a Terra, e espera-se uma população de mais de 9 bilhões em 2050. Consequentemente a pressão da necessidade alimentar também cresce no mesmo ritmo. Recursos como água, terras cultiváveis são cada vez mais valorizados. Segundo especialistas, a água poderá ser o pivô das próximas guerras. Mas na esteira da disponibilidade de água potável tem-se a disponibilidade de alimentos, e como todos já sabem desde os estudos primários, a base da cadeia alimentar de nosso planeta são os vegetais.

Então se precisamos de mais carne e cereais na mesa o que fazemos? 
Abrimos pastagens e campos de cultivo, afinal mato não tem valor e não mata a fome nem a sede da população!!!!


Este mapa abaixo revela uma região do Rio Grande do Sul em dois momentos, com intervalo de 15 anos. Percebam como conseguimos criar ILHAS VERDES ao abrirmos pastos e monoculturas industriais! Quantas espécies de abelhas foram extintas ou restringidas em seu deslocamento nestes 15 anos? E da data do último mapa até hoje já passaram mais 16 anos !!! 
Como estará um novo mapa do mesmo local?

Zakri Abdul Hamid, presidente de uma Plataforma Intergovernamental tenta chamar a atenção do mundo para o problema do declínio da diversidade de espécies de plantas e de animais em todo o planeta, conhecido como “o sexto grande episódio de extinção na história da Terra”... Cerca de 75% da diversidade genética de culturas agrícolas foi perdida no último século.
Um dos fatores responsáveis por isso foi o EGOÍSMO humano, pois primeiro supre suas necessidades e depois pensa no meio ambiente .... 
Melhor dizendo ... primeiro supre seus supérfluos, em seguida foca seus lucros, e por último pensa no meio ambiente!
   
Assim, mesmo abrindo fronteiras cultiváveis cada vez maiores, a indústria agropecuária de todo o mundo cultiva e cria variedades geneticamente uniformes e de alto rendimento, e forçam o abandono de muitas variedades locais. 
Hamid ainda complementa: “A perda de diversidade genética de animais domésticos reflete a falta de visão geral do valor de raças nativas e de sua importância na adaptação às mudanças climáticas globais”.

Diante deste cenário muitos cientistas já estão afirmando que estamos vivendo a Extinção do Holoceno. Vou traduzir: Holoceno é um termo geológico para definir o período que se estende de 12 ou 10 mil anos para trás – quando terminaram os efeitos da última glaciação até os dias atuais.
Assim Extinção do Holoceno é o nome dado pelos cientistas ao evento que vem ocorrendo com as extinções de plantas e animaisperpetrado pelo ser humano neste período. 
E o mais espantoso é que tal extinção distingue de todas as demais conhecidas por ocorrer unicamente sob intermédio da civilização humana, e não por ocorrências biogeoquímicas ou cósmicas.

Acho que estou me alongando demais! 
E a tal abelha d'água, título desta prosa? 
Já falei da seca, das "nossas ilhas verdes", da população crescente, biodiversidade, holoceno .... como tudo isso se encaixaria? 
Bem, deixa eu ver se consigo me fazer entender ..... As abelhas sem ferrão evoluem desde antes da separação do antigo continente de Gondwana, cerca de 150 milhões de anos atrás, antes do aparecimento de abelhas apis. 
Será que estamos demonstrando sensibilidade e humildade suficientes para entender o que são 150 MILHÕES de anos de evolução ? 

 Gondwana é formada por terras que hoje são América do Sul, África, Austrália e Índia
Faixa correspondente ao Gondwana atualmente ocupada pelas abelhas sem ferrão. 

Durante este período a flora desta faixa se especializou em suas estratégias de sobrevivência. E não se trata de uma simples especialização, são 150 MILHÕES de anos em especialização!!!! 
Foi nesse período que apareceram as flores como meio de dispersão genética. 
Diante de tanta variedade de plantas dentro da faixa da Gondwana que estavam se especializando, as abelhas que são do mesmo período, participaram concomitantemente desta estratégia. 
Assim não é de se admirar que só aqui no território que corresponde ao Brasil, encontremos hoje mais de 360 espécies de abelhas sem ferrão já identificadas, fora as não identificadas e as extintas. 
Com toda esta especialização estratégica, há um detalhe MUITO importante associando as abelhas sul americanas à flora local ....
As espécies vegetais que constituem os biomas nativos brasileiros passaram a apresentar no decorrer de sua especialização uma característica peculiar no que se refere à polinização: 90% da flora possui flores que sofrem da síndrome de melitofilia vibrátil.
Isso significa que além de serem polinizadas por abelhas, as flores necessitam de uma vibração mecânica vigorosa para conseguirem liberar pólen suficiente e atingir uma polinização adequada, capaz de produzir frutos saudáveis e em quantidade suficiente para sustentar a vida no bioma. 
E esta vibração é gerada pelas Abelhas Sul Americanas.
 

Mas nos dias atuais vamos sustentar quais vidas em quais biomas? 

Quando foi discutido o Código Florestal, em 2011, a comunidade científica cansou de alertar os deputados de que a biodiversidade tem uma função hídrica importantíssima:
PRESERVAR A ÁGUA E MANTER SEU CICLO EM EQUILÍBRIO.


O nosso cerrado, por exemplo, está sendo devastado por ser considerado área de expansão da fronteira agrícola e pecuarista. Existe uma proposta de emenda constitucional  [PEC 115/95], parada há 20 anos, que propõe o reconhecimento do CERRADO como patrimônio nacional.

Mas o contexto de nossa política ambiental é diferente. Tudo isso que falei até agora sobre biodiversidade joguem na lata do lixo, pois aqui no Brasil não é levado em consideração.... 


Ainda mantendo o Cerrado como foco do meu exemplo, é impossível saber ao certo quantas espécies já foram extintas nos 41% do Cerrado que não existem mais. Esta é a CRUZ que o Cerrado carrega, apesar de ser considerado o 2º maior bioma brasileiro e estar no centro e interligando todos os demais biomas.
Gente  ....  41% de extinção só no período de expansão agrícola!! 
Será que este não é um preço muito alto a ser pago por produtos alimentícios que em sua maioria não ficam nem na mesa do brasileiro, pois são quase todos exportados ...?? 

O Cerrado apresenta 3 gigantescos aquíferos que fornecem água para 6 das 8 principais bacias hidrográficas brasileiras. 
É o telhado do Brasil !! Mas um telhado com 41% de sua área danificada ...


O Cerrado tem uma vegetação de pequeno porte com imensas raízes que atuam como uma grande esponja no centro do Brasil, captando e distribuindo água. O Cerrado pode até ser considerado como uma Amazônia de cabeça para baixo!!!  

Pasmem, apesar de ser a caixa d'água do Brasil ..... o diretor do Parque Nacional da Serra da Canastra, Luiz Arthur Castanheira, disse em 2014 na entrevista ao G1, que a nascente do Rio São Francisco, situada em São Roque de Minas, SECOU.
Segundo Castanheira, essa nascente é a principal de toda a extensão do rio, que tem 2.700 km.

Pois é .... fato nunca visto antes ... secou ...



Vou dar mais um dado para arrematar este viés. Existe uma teoria, que gera controvérsia: A teoria do CAOS descrita pela primeira vez pelo matemático americano Edward Lorenz, em 1963. A equação que a define gera um complexo gráfico chamado "atrator estranho", que guarda uma singular aparência com uma borboleta de asas abertas. Por isso esta teoria também é popularmente conhecida como EFEITO BORBOLETA. Mas a coisa é séria e comprovada ....


Não há nada, nem mesmo nenhum acontecimento em nossa vida que seja completamente sem importância. Vamos tentar simplificar e exemplificar a Teoria do Caos, para isso não existe exemplo melhor do que algo caótico como as nossas próprias vidas, aparentemente previsíveis e sequenciais - mas moldadas pelas escolhas que fazemos em face do que o “acaso” nos proporciona. 
“Acasos” aparentemente pequenos, como o ônibus perdido por alguns segundos ou o papo furado com alguém pra passar o tempo em uma longa fila, podem ter uma grande influência nas nossas vidas a longo prazo. 
Imagine que, no passado, você tenha perdido o vestibular na faculdade de seus sonhos porque um prego furou o pneu do ônibus. Desconsolado, você entra em outra universidade. Então, as pessoas com quem você vai conviver serão outras, seus amigos vão mudar, os amores serão diferentes, seus filhos e netos podem ser outros...
 Outra definição mais simples que encontrei, na Internet, sobre o tema foi a dada por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão: “Ações aparentemente inconsequentes e de pouca importância podem ter, ao longo do tempo, efeitos radicais sobre o presente e o futuro.” 
O exemplo apresentado por ele é assim:
“Por causa de um prego, a ferradura foi perdida. Por causa da ferradura, o cavalo foi perdido. Por causa do cavalo, o cavaleiro foi perdido. Por causa do cavaleiro, a batalha foi perdida. Por causa da batalha, a guerra foi perdida. Por causa da guerra, a liberdade foi perdida. Tudo isso por causa de um simples prego.

Com tudo isso já pensaram que podemos estar sofrendo o EFEITO ABELHA SUL AMERICANA?




Não sei, com que expus até agora, se já foi possível compreender o que estamos fazendo com 150 MILHÕES de anos de estratégias de sobrevivência ?
Uma simples abelha sem ferrão quando extinta, pode exterminar todo um ciclo de grande representatividade:
=>Abelha poliniza a Lobeira 
=> que alimenta o Lobo Guará 
=> que quebra a dormência do Araticum.  
=>As raizes do Araticum atingem de 10 a 12 metros de profundidade 
=> que propiciam a infiltração e captação de água no solo 
=> que por sua vez alimentam os aquíferos.
=>Aquíferos no centro do Brasil 
=>que alimentam as 6 principais bacias hidrográficas brasileiras 
=> que por sua vez alimentam sua torneira em sua confortável casa urbana provida de máquina de lavar roupas, lavar louças e descargas que dispensam 30 litros de água para descartar suas fezes !!! 

Imaginem o efeito causado pela extinção de 41% da biodiversidade no Cerrado, e tantas outras abelhas nativas extintas!
Quantos ciclos foram quebrados?

Se não conseguem imaginar é bem fácil fazer uma imagem da situação .... a caixa d'água secou !!!


Lógico que a causa não é tão simplista como coloquei aqui, mas decerto que em diversas situações podemos afirmar: Sem abelha nativa => Sem água 
Agora é fácil entender o termo ABELHA D'ÁGUA ?
Muitas espécies das nossas abelhas Sul Americanas, nativas, sem ferrão ou conforme queiram chamá-las, estão em um patamar além da polinização, elas prestam um serviço imprescindível de manutenção do nosso ciclo de águas!
Então vamos olhar para elas com mais carinho e respeito, pois enquanto as abelhas Apis estão sendo espremidas pelo aquecimento global na Europa, conforme sugestão de recente teoria (matéria: http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,aquecimento-global-explica-extincao-de-abelhas-do-hemisferio-norte,1722181), as nossas abelhas Meliponinae estão sendo espremidas com certeza pela nossa desenfreada expansão agrícola, pecuarista e extrativista de madeiras!!   


By Medina

PS.: Posto abaixo um vídeo sobre o cerrado, que serviu de base e exemplo para esta prosa.